![]() |
| Fora da zona de conforto |
Voltemos para identificar de onde saíram, onde estiveram. Na ocasião da Contra-Revolução de 1964, o cenário estava azedo, quando um governo solapava as instituições e organizações clandestinas se preparavam para a tomada do poder via armas. As Forças Armadas cumpriram dever, embora se prolongassem mais que o suficiente para manter o poder originário intocado por ideias e poderes estrangeiros, combatendo um terrorismo armado recrudescente.
A atividade partidária se concentrava entre os que apoiavam o regime (ARENA) e os que se lhe opunham (MDB). Neste último partido, se ajuntavam homens dos mais diversos, desde a esquerda social-democrática até uma direita democrática, pois, embora diferentes, estavam unidos em prol da democracia.
Ao multiplicarem-se os partidos de todos os espectros, foi retomada essa ainda frágil democracia -- que nunca fora estável e sólida (ou mesmo respeitável), desde a saída da Monarquia -- e nisso se formou um partido com a agressividade e ranço padrão da esquerda comunista: o PT. O PT sempre foi contra tudo que além de si próprio (mesmo que ele considerasse bom), tinha um discurso caricato, respeitado apenas por seus militantes. Estes sempre gritaram àquela hora.
Obviamente o Brasil não o levava a sério. Foi preciso engambelá-lo. Surge o PT paz-e-amor. "O PT mudou" disseram, padres convenciam os fiéis dóceis, foram feitas promessas dóceis ao mercado. Nessa época foi o auge do apoio, já que não somente a militância gritante, mas também boa parte do povo o aclamou. O PT foi ungido, mas o Brasil continuou a pensar da mesma forma, pacato e pacífico.
O PT começou a mostrar o que sempre foi. Uns não acreditaram e fingiram não ver, outros insistiam que o que se via não era aquilo que parecia. O brasileiro ficou apático, incrédulo, indignado. O PT comprava o apoio que não tinha no Congresso, para aprovar o que não se queria, mas que estava na agenda imóvel do partido (ou do Foro de São Paulo). A corrupção começou a corroer os poderes, as instituições e a própria sociedade, assediada (escravizada) pelos altos impostos, criminalidade, ineficiência, imoralidade. Ser petista nessa hora não era elegante, não tinha o glamour acadêmico e midiático: era apenas o poder cru e bruto a ser exercido. Disseram que o poder corrompeu o PT, mas que o PT é que começou a combater a corrupção, como nunca antes na história desse país.
Os petistas estavam discretos em suas "altas ocupações". Afinal, quem iria contra o povo e ousaria tirar o PT? A Bolsa Família não era tudo o que queriam, o gran finale, justamente o Brasil do futuro, irretocável, a solução para todos os problemas? Mas o povo percebeu que o PT queria o poder só para si, e os exemplos já haviam sido trilhados por outros da mesma trupe na América Latina. Uma oposição desconjuntada, múltipla e desconexa começou a se levantar contra o PT, tendo em comum o desejo de manter a democracia.
A dita "direita" tomou as redes sociais (cuja a única oposição era a militância paga). O petista já não poderia ficar escondido de vergonha. Uns chegaram a apoiar o PT ortodoxo, através da Luciana Genro, outros votaram abertamente na Dilma pra ela levar no primeiro turno. O PT não é mais motivo de orgulho, mas devem defendê-lo para que "não sejam perdidas as conquistas" e o Brasil não volte atrás.
Por um lado, isso foi bom. O Brasil saiu da apatia. Percebeu que ele pode alterar as urnas, sentiu o poder da mobilização (e ela foi bem espontânea). Por outro lado, isso tende a incrementar a odienta política petista do nós contra eles: "viu!?, as antigas elites se revoltaram contra o povo faminto, pois só sabem semear o ódio e não são capazes de olhar para o pobre". Mas o petista, fora da toca, ainda está envergonhado. Está tentando construir o orgulho, mas o PT parece ter destruído tudo o que era para se orgulhar.
Que isso tenha ensinado a população sobre o que é democracia. E que ela aprenda a negociar melhor, não precisando recorrer a protestos violentos. O voto sob pressão é a melhor coisa, pois o político assume compromissos e saberá qual parcela da população o apoiou. E o povo deve manter a pressão mesmo depois da eleição. Há muita corrupção enraizada no nosso seio e essa resistência se fará valer depois das eleições, que são apenas o primeiro passo.
Pela moralização do Brasil.

Nenhum comentário:
Postar um comentário