sexta-feira, 31 de outubro de 2014

O "amor" nos tempos da eleição

Esse discurso do "amor contra o ódio" é tão falacioso, um embuste tão descarado, que impressiona-me muito ver tantas pessoas deixando-se levar por tal manobra.
Vejam bem: pessoas -- como qualquer criatura passional -- sentem raiva, indignação, momentos de furor que por vezes as fazem perder a cabeça e beirar o absurdo. Situações inflamadas, capazes de levar uma pessoa sensata até o desespero do desrespeito, podem suscitar manifestações deploráveis e obviamente repreensíveis, mas infelizmente são também situações inevitáveis, uma vez que estamos falando de seres humanos.

O cerne dessa questão não está no comportamento furioso dos indivíduos, mas sim na postura com que se lida com ele.
Considerando dessa forma, existem duas posições possíveis de se assumir: a postura conciliadora, que busca apontar o equívoco e a inutilidade da ira, a fim de acalmar os ânimos e unir os lados da briga; ou a postura incitadora, que se preocupa mais em evidenciar e até salientar a ira, a fim de fomentar o conflito. Representantes políticos, como mediadores e gestores da sociedade, podem sustentar uma das duas posições mediante um confronto.

Fica então muito claro, considerando o quadro atual, que um dos lados da recente disputa eleitoral, em depoimentos oficiais de campanha, busca constantemente o oposto à conciliação e conscientização geral de que não há motivos para brigas, de que somos todos a mesma nação e devemos nos respeitar e caminhar juntos. Não, um dos lados assume nitidamente o papel de provocador -- aquele que vem a público justamente para agravar a fúria e constatar formalmente: "existem diferenças sim e, não só isso, eles ainda te odeiam! (São como nazistas)". É um posicionamento histórico de instigar as diferenças e, principalmente, se beneficiar delas.
Para ser mais precisa, um dos lados SUSTENTA-SE exatamente nas divergências, é a base de todo o seu discurso e essa atitude agravante ficou explícita nos eventos recentes; não há mais cinismo ou máxima de Lênin -- "xingue-os do que você é; acuse-os do que você faz" -- capaz de maquiar isso.

A estratégia é clássica e óbvia: indentifique os possíveis conflitos sociais e fomente-os. Chegue às classes que de alguma forma estão desfavorecidas ou oprimidas, saliente suas diferenças e promova uma vitimização aguda até que elas acreditem ser você aúnica salvação. 
Vitimize as mulheres, demonize os homens -- chame tudo de machismo.
Vitimize os negros, demonize os brancos -- chame tudo de racismo.
Vitimize os homossexuais, demonize os heterossexuais -- chame tudo de homofobia.
Vitimize os pobres, demonize os ricos -- chame tudo de ódio de classe.
Glorifique a esquerda, demonize a direita -- chame tudo de fascismo.
Generalize qualquer opinião inconveniente à sua como "discurso de ódio" e siga dessa forma passivo-agressiva estimulando o ódio em todas as direções, enquanto o "verdadeiro amor" só poderá transitar livre em um único sentido: da sociedade ao partido. É uma pena que a recíproca deste, infelizmente, não é verdadeira.
Não é uma busca real por igualdade; é uma patente exploração das fragilidades e reais injustiças da sociedade com a única finalidade de concentrar cabalmente o poder.
O amor não venceu o ódio, foi um partido que venceu as eleições. E, até onde eu sei, partido nenhum é amor.

Cada um tem seu direito de concordar com as medidas e manobras do que acredita ser melhor, mas, pelo amor de Deus, não caiam nesse discurso barato e distorcido do "amor contra o ódio". 


PS: qualquer um que sustenta preconceito, desrespeito e ódio está invariavelmente errado; mas quem é oposição ao PT e se porta dessa forma está ainda duplamente equivocado, visto que tal comportamento só os favorece e SERÁ USADO por eles para reforçar as dicotomias que pregam.
Devemos, acima de qualquer partido ou opinião política, sempre nos respeitar como indivíduos e buscar mais igualdade e harmonia entre as diferentes "classes" da sociedade.

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