Esse discurso do
"amor contra o ódio" é tão falacioso, um embuste tão descarado, que
impressiona-me muito ver tantas pessoas deixando-se levar por tal manobra.
Vejam bem: pessoas -- como
qualquer criatura passional -- sentem raiva, indignação, momentos de furor que
por vezes as fazem perder a cabeça e beirar o absurdo. Situações inflamadas,
capazes de levar uma pessoa sensata até o desespero do
desrespeito, podem suscitar manifestações deploráveis e obviamente
repreensíveis, mas infelizmente são também situações inevitáveis, uma vez que
estamos falando de seres humanos.
O cerne dessa questão não
está no comportamento furioso dos indivíduos, mas sim na postura com que se
lida com ele.
Considerando dessa forma,
existem duas posições possíveis de se assumir: a postura conciliadora, que
busca apontar o equívoco e a inutilidade da ira, a fim de acalmar os ânimos e
unir os lados da briga; ou a postura incitadora, que se preocupa mais em
evidenciar e até salientar a ira, a fim de fomentar o conflito. Representantes
políticos, como mediadores e gestores da sociedade, podem sustentar uma das
duas posições mediante um confronto.
Fica então muito claro,
considerando o quadro atual, que um dos lados da recente disputa eleitoral, em
depoimentos oficiais de campanha, busca constantemente o oposto à conciliação e
conscientização geral de que não há motivos para brigas, de que somos todos a
mesma nação e devemos nos respeitar e caminhar juntos. Não, um dos lados assume
nitidamente o papel de provocador -- aquele que vem a público justamente para
agravar a fúria e constatar formalmente: "existem diferenças sim e, não só
isso, eles ainda te odeiam! (São como nazistas)". É um posicionamento
histórico de instigar as diferenças e, principalmente, se beneficiar delas.
Para ser mais precisa, um
dos lados SUSTENTA-SE exatamente nas divergências, é a base de todo o seu
discurso e essa atitude agravante ficou explícita nos eventos recentes; não há
mais cinismo ou máxima de Lênin -- "xingue-os do que você é; acuse-os do
que você faz" -- capaz de maquiar isso.
A estratégia é clássica e
óbvia: indentifique os possíveis conflitos sociais e fomente-os. Chegue às
classes que de alguma forma estão desfavorecidas ou oprimidas, saliente suas diferenças e promova uma
vitimização aguda até que elas acreditem ser você aúnica salvação.
Vitimize as mulheres,
demonize os homens -- chame tudo de machismo.
Vitimize os negros,
demonize os brancos -- chame tudo de racismo.
Vitimize os homossexuais,
demonize os heterossexuais -- chame tudo de homofobia.
Vitimize os pobres,
demonize os ricos -- chame tudo de ódio de classe.
Glorifique a esquerda, demonize
a direita -- chame tudo de fascismo.
Generalize qualquer
opinião inconveniente à sua como "discurso de ódio" e siga dessa
forma passivo-agressiva estimulando o ódio em todas as direções, enquanto o
"verdadeiro amor" só poderá transitar livre em um único sentido: da
sociedade ao partido. É uma pena que a recíproca deste, infelizmente, não é
verdadeira.
Não é uma busca real por
igualdade; é uma patente exploração das fragilidades e reais injustiças da
sociedade com a única finalidade de concentrar cabalmente o poder.
O amor não venceu o ódio,
foi um partido que venceu as eleições. E, até onde eu sei, partido nenhum é
amor.
Cada um tem seu direito
de concordar com as medidas e manobras do que acredita ser melhor, mas, pelo
amor de Deus, não caiam nesse discurso barato e distorcido do "amor contra
o ódio".
PS: qualquer um que
sustenta preconceito, desrespeito e ódio está invariavelmente errado; mas quem
é oposição ao PT e se porta dessa forma está ainda duplamente equivocado, visto
que tal comportamento só os favorece e SERÁ USADO por eles para reforçar as
dicotomias que pregam.
Devemos, acima de
qualquer partido ou opinião política, sempre nos respeitar como indivíduos e
buscar mais igualdade e harmonia entre as diferentes "classes" da
sociedade.
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