sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Eleições 2014 - Linhas auxiliares



Em continuidade ao meu texto anterior, quero demonstrar aqui a unidade da esquerda disfarçada em múltiplas facetas. Essencialmente, resumo o argumento do texto: a esquerda se disfarça sob a aparência de pluralidade (que reforça a imagem de democracia), mas todas as diversas correntes visam a uma mesma finalidade.



Se formos avaliar o espectro da esquerda, veremos que há uma enorme gama de posturas e opiniões, que oscilam seu discurso entre dois polos. Mas quais polos? Quaisquer uns que se queira. Basta escolher um lado para a posição e o outro para oposição, enviando todas as outras ideias políticas para fora da discussão e do embate. Temos PT como radicalismo e PSDB como bom senso? Ou o PT que representa o povo e o PSOL o radicalismo? Aí é que podemos avaliar em que ponto do espectro político está o que a população considera normal. Se PT é o centro, PSDB é direita e PSOL esquerda. Mas PSDB é obviamente centro-esquerda (social-democrata), enquanto que ideias de direita como as de Bolsonaro e Enéas Carneiro são consideradas psicopatias.

Essa técnica é conhecida como Estratégia das Tesouras, explicada por Olavo de Carvalho neste vídeo e neste texto. Surgem aqui muitas palavras-chave que dão ensejo muitas buscas: revolução Cultural, Escola de Frankfurt, Espiral do Silêncio, Revolução Sexual, Antonio Gramsci (gramscismo), Georg Lukács, Jürgen Habermas, Michel Foucault... e essas pesquisas trarão outras a quem se aventurar. Mas isso não importa neste texto. Basta pescar o espírito, cujo panorama completo está no livro Revolução e Contra-Revolução (RCR).

Por um lado temos diversos partidos cada um aparentando divergir mais e mais. No entanto, vemos coisas peculiares. Uma é que vários partidos são filiados ao Foro de São Paulo, organização que dita diretrizes para os partidos latinoamericanos e que governa vários países da América Latina -- acompanhem o belo apanhado que o Igor Guilhen tem feito neste blog. Outra coisa que vemos é o alinhamento em temas e votações no Congresso, que esses vários partidos de esquerda têm (deixo para o leitor verificar in loco, na política brasileira), como que formam as bancadas.

Pra que isso? Pra que essa pluralidade? Isso passa a imagem de uma democracia vitalizada, mesmo que com as mesmas opiniões, mas disfarçadas de divergências. Entre duas falsas oposições para escolher, não há espaço para uma oposição REAL. O que pode-se perceber, inclusive, é que a esquerda tem vários discursos, cada um palatável no seu ambiente específico. Se a mídia (opinião pública) aceita os conceitos das revolução sexual feminista e gayzista, talvez não esteja pronta para o sexo entre adultos e meninos (pedofilia). Se o discurso do PT de distribuição soa bonzinho e humanitário, talvez a população não esteja pronta para a expropriação das propriedades.

Há várias camadas do discurso de esquerda. Na mídia, o que já se conhece. No barulho das universidades*, teses socialistas mais ortodoxas. Nos altos círculos acadêmicos de esquerda, mais discretos, discutem-se assuntos escandalosos demais para serem citados, os próximos passos da engenharia social. Os intelectualóides votam no PSOL hoje, que bom que são poucos! Mas o PT não defende abertamente o que fala o PSOL, pois seria rechaçado direto pela população. Vergonhinha útil. O PSOL no fundo gostaria de falar como o PSTU. Cada um fale para os seus, no momento certo, no ambiente certo.

FIM.
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* Estudei na USP (berço do PT e do PSDB) e frequentei departamentos de humanidades. Primeira coisa que vi: não são os estudantes que governam, mas os partidos políticos -- o DCE na época era do PSTU (quando isso?, num mundo civilizado?!). Discussões agendadas nos painéis: Livro 3 de O Capital, capítulo N, versículo P... Jornais que circulavam: contra a PM (não só na universidade, mas em todo o país), apologia à liberação de todas as drogas, defesa de expropriação de terras e indústrias. Fora a violência -- que eles chamam de "discussão" -- contra os reacionários. Eu mesmo fui vítima de paralisação violenta de aulas.

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Adendo

Os links que coloco não são necessários para a compreensão dos textos, os coloco apenas para dar opção de se aprofundar em qualquer um dos temas pelo qual o leitor se interessar. No entanto, se alguém reparou, coloquei um link que põe PSDB e PT no mesmo saco. O leitor poderá dizer: "mas não é você que diz que votará no Aécio?"

Nunca quero passar uma imagem maniqueísta. Nunca formem uma imagem do que digo do tipo: "eles são maus, nós bons". Esses textos são esquemas para uma compreensão (que deve ser leve e quase despreocupada!) de métodos de ação e de tendências verificáveis. Mas são esquemas, não são julgamentos estáticos.

No caso, o PSDB me parece a opção viável a um rumo que tende a chegar numa ruptura e descambar na Venezuela de hoje. O PSDB nem sequer me representa, já que eu gostaria de pautas mais cristãs e aumento do prestígio e dos meios das Forças Armadas.

Devemos sempre ter um raciocínio prático, tomar a melhor atitude para o momento. O momento pede um freio no PT. E mais: o Brasil pede um discurso conservador. E o PSDB tem assumido -- mesmo que com vergonha, dada a sua origem -- esse papel, preenchendo a oposição que falta para representar boa parte dos brasileiros. Mesmo porque, até pela perspectiva da RCR, talvez só tenhamos disponível o degrau da revolução anterior (a Iluminista) para subir.

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