segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Série MILITARISMO - 1 - Violência e legítima defesa

Ato simbólico do desarmamento: negar a existência da violência.

Um princípio que adoto é comparar o homem (indivíduo) com as instituições, por exemplo o Estado. Não há nada que uma instituição faça que não seja o desdobramento e especialização de uma faculdade humana. No caso do estado, não há nada que ele faça que um indivíduo não seria capaz por si mesmo. Na figura acima vemos a destruição de armas, uma filosofia implícita que quer afirmar: "se nós quisermos, podemos abolir as armas, podemos abolir a violência". Será?


1 - Violência: uma característica humana.

Do ponto de vista prático, a  pergunta que se impõe é: "é possível acabar com a violência?". Antecipo a resposta: "não". A única opção é mitigá-la com: (a) políticas de repressão violenta contra quem usa da violência para se impor na sociedade; (b) espiritualização do indivíduo, para que não haja nele impulso de violência e a violência seja usada só na defesa. Alguns dirão: "não era para a gente oferecer a outra face?". Respondo adiante (item 4).

Ainda quero insistir na possibilidade de varrer a violência da existência no mundo. Por que, numa roda de amigos, não podemos nos propor o seguinte: "olha, nós somos muito amigos, vamos abrir mão daquilo que nos faz mais fortes"? Aparentemente é bem possível. No entanto, a violência sempre será reduzida a uma expressão simples: "não". O ato de dizer "não" é um ato antissocial, em que uma pessoa se coloca contra a vontade do outro ou de um grupo.

As coisas são boas em geral, mas desde o primeiro ato de rebeldia as pessoas dizem "não", não se conformam com o seu lugar, com a estrutura do mundo, com o sistema social, com a sua identidade. Gente que vira comunista com o ódio de classes, a ideologia de gênero contra o sexo de nascença, as revoluções estéticas contra os padrões da beleza (da mulher, da música, da pintura...), a inveja contra a virtude alheia... todas essas coisas são a revolta contra a realidade tal como é. Basicamente elas dizem "não" e este "não" significa o desejo da morte.

Este "não" é o único "não" possível. Qualquer freio é um "não". Um remédio é um "não" à doença, dito por quem ainda quer viver. Um pai educando seus filhos precisa dizer "não" ao se passar para fora das fronteiras morais. A defesa é um "não" contra o desejo da morte, que vagueia pelo mundo em busca de se saciar.

2 - Violência: uma constante no mundo.

Para ver se é possível uma sociedade sem violência, façamos primeiro uma avaliação da própria consciência. Quantas vezes não tivemos inveja do outro, do que ele possui, do seu sucesso? A violação de um dos 10 mandamentos indica apenas uma coisa: o "não" contra a ordem, o desejo da morte. Cada um dos vícios dos 7 pecados capitais mostra uma escravidão: a pessoa não consegue abrir mão daquele prazer e, para consumá-lo, faz uso da violência contra a sociedade.

Convenhamos: as pessoas são falsas. Elas fingem simpatia e civilidade, mas por debaixo do pano as pessoas maquinam males. Vários santos propõem exercícios espirituais. Um único exercício pode ser repleto de significados. Proponho o seguinte exercício: comparar como agimos em público com a nossa sinceridade conosco mesmo em privado. Veremos uma grande verdade: conosco ainda temos um senso de verdade, mas em público não temos o mesmo compromisso. Cada mentira (ou omissão) que encenamos em virtude da manutenção de uma amizade (cumplicidade no pior sentido), na agregação social dentro de uma tribo ou ideologia, para conseguir vantagens financeiras...

As Confissões de Agostinho são o exercício completo de desmancharmos essas mentiras, que às vezes criamos para nós mesmo e acreditamos. A confissão a Deus (pedindo na verdade para Ele contar aquilo que já sabe), mostra as mentiras que convenientemente escondemos de nós mesmos na nossa auto-justificação. E esse "castelo de cartas", que são as mentiras que construímos, acabam sustentando valores mesquinhos, em que gasto a vontade da minha vida colhendo vento.

Ressalta-se que essa violência está na nossa consciência, ou seja, escondida. O mal social é apenas o transbordamento daquilo que está no coração. Em público é bom posar de bonitinho. Estando na consciência, não é uma lei que nos tira as armas que vai resolver. As armas são o aspecto mais ingênuo desse problema, que repousa na adoração ao mal. Com efeito, certas pessoas buscam a maldade e isto se dá sempre de forma velada em ritos macabros ou em seitas egoístas, às quais atribui-se o controle indireto da sociedade.

Quando que teremos um mundo que se abstenha do poder e da afirmação do orgulho? Só quando pregarem antes a quietação espiritual é que vou acreditar no desarmamento. Por enquanto, as mídias e os governos só patrocinam o barulho, a livre vazão dos prazeres mesquinhos, os quais são atendidos a custa de injustiça: seja injustiça social (abismo social), atentando contra as minorias (bullyings diversos) etc.

3 - Desarmamento: a arma do totalitarismo.

Desnecessário falar que o totalitarismo moderno deseja, para controle de massas, o desarmamento. Alega-se que em ambos os lados (pró e contra armas) a manipulação estatística tenta puxar as conclusões para o seu lado, mas o que importa é a sensação de segurança. Quem tem uma vida mais longa saberá dizer como era antes em grandes cidades ou mesmo nas menores, já assoladas pela violência.

O estado, por definição, tem o monopólio da força. Tanto na segurança interna (polícia), quanto na externa (forças armadas), fazendo assegurar que em seu território valha o seu direito. O estado é, por assim dizer, o direito e este origina de sua fonte, que é o povo. Homens usam armas, seja um cidadão ou um militar. O estado querer recolher as armas, não muda o fato de que ele mesmo continuará com armas. Então não há confiança 100%. E por que o povo deve confiar que o estado não usurpará de seu poder e virar-se-á contra o povo?

Pesa a questão da legitimidade relativa do estado de direito. O fator preponderante é a percepção que o povo tem da justiça e da impunidade. Um estado injusto com as armas na mão é o melhor argumento para "decisões civilizadas", sem que possa haver reação do povo. Diz-se que não se deve reagir a assaltos. Mas o mundo se depara com um tipo de crime, em que, mesmo que não reajam, as pessoas são mortas: facções criminosas usam isso para espalhar o terror, bem como organizações internacionais como o Estado Islâmico.

4 - Legítima defesa: o "não" contra o "não".

Associa-se a legítima defesa ao matar, à perpetuação da violência. De fato, a legítima defesa vai justificar alguém que mate para preservar a vida. Mas não é só aí que reside a defesa, pois ela envolve meios proporcionais de lidar com a agressão: se alguém mata outro numa reação desproporcional (empregado muito mais força que o agressor), não poderá alegar legítima defesa.

Uns mais "espiritualizados" dirão: "mas isso vai contra o 'não matarás'". Esquecem-se de que os mandamentos são hierárquicos. Mandamentos mais importantes que o "não matarás": "honrar pai e mãe" (sua família, sua pátria), "guardar dias de festas" (respeitar os ciclos e a cultura da sociedade), "não tomar o nome de Deus em vão" (não ser hipócrita e se passar por bonzinho), "amar a Deus sobre todas as coisas" (não amar os falsos ídolos: o dinheiro, o poder, o prazer).

Neste caso, a defesa é o veneno que evita o mal maior. O veneno nos mata, mas uma pequena dose (o remédio) serve para matar a morte em nós. Quando o mal fermenta na sociedade, ele semeia a morte por meio maus elementos, cânceres sociais. E não há como tratar o mal, senão pela afirmação do bem ou pela negação do mal. Às vezes opta-se pelo drástico, a morte, para que o corpo não morra: isso mostra que o bem não conseguiu se impor.

Mas a nossa sociedade quer o bem? Ela vive de semear o mal. O culto satânico é a expressão límpida disso. Mas há a manifestação turva, misturando coisas boas e ruins, colando heresias a verdades, associando vícios a virtudes. Enquanto não conseguirem deletar o mal do mundo, não há como abrirmos mão da nossa defesa, que é em primeiro lugar da nossa alma. As coisas que acontecem no mundo (o corpo) são apenas desdobramentos concretos do espírito que se manifesta nos desejos de nosso coração (alma): os males sociais e os vícios são doenças na alma.

5 - O homem em plena faculdade: o medíocre. 

O gênio da modernidade é aquele ser romântico, um herói excêntrico com uma habilidade (genialidade) singular, mesmo que às custas de um desequilíbrio nas suas outras faculdades. A sociedade atual deseja ser o gênio, o insuperável na literatura, ou nos esportes, ou nas ciências, ou no amor etc. Mesmo que resulte num anti-social, numa pessoa que não sabe se expressar, numa pessoa com físico atrofiado etc.

Na antiguidade clássica o modelo de pessoa era o oposto, a dizer, o medíocre: aquele que tem suas faculdades equilibradas. Hoje em dia, medíocre é sinônimo de ordinário, o homem-massa comum por aí: que trabalha e consome como uma engrenagem. O medíocre antigamente se media em relação ao homem centrado, com suas faculdades equilibradas: ele não era maioria.

Com a divisão do trabalho (a especialização), a sociedade começou a se fragmentar para ganhar eficiência: para que cada um saiba fazer bem e rápido uma parcela do todo. Mas essa fragmentação chega num ponto em que as pessoas começam a ter dificuldade de se comunicar e um problema não possa ser pensado dentro de um sistema: não há mais bom senso para julgar coisas com diferentes réguas de medida. A mente humana, vem perdendo sua parte intuitiva, que enxerga direto o que é melhor, em troca de uma mente analítica de parâmetros tecnicistas.

Na educação e por toda a vida o homem pode especializar-se, mas deve manter uma linguagem comum em todos os terrenos. E todos os terrenos significa TODOS OS TERRENOS. Boa parte desse artigo é para concluir que não se pode negar a violência (ou o mal) como fato social. Portanto, o homem deve ser capaz de defender-se. A família é um mini-estado: ela tem as suas leis, ela zela por sua segurança, ela tem uma economia, ela tem uma cultura etc. Por que é que o estado quer reservar esse aspecto, a segurança (a defesa, a morte, o remédio social), só para ele?

6 - A morte: realidade desagradável.

As pessoas não gostam de sujeira. Mas fingir que ela não existe é coisa de covarde. Por exemplo, todos nós temos necessidades excretoras, mas não ficamos conversando muito sobre isso, primeiro por falta de necessidade, segundo por questão de boa convivência. No entanto, a defesa é uma assunto necessário (até urgente). Em certas ocasiões o homem deve ser capaz de matar.

Quem dos que comem carne é forte o suficiente pra matar o animal que vai comer? A nossa sociedade higiênica finge que isso não existe: mas o bife está sempre lá. Tem comunista chique que sempre fala mal do imperialismo Yankee: são os primeiros que nós vemos em Disneylândias e consumindo produtos do capitalismo (viagens, bebidas, festas etc.). O promíscuo fala e pratica a liberdade sexual, mas bem que procura uma pessoa certinha na hora de casar-se. O libertário fala da liberação geral (drogas, sexo, mercados não ortodoxos) e da hipocrisia geral da sociedade, mas quer o estado de direito quando a selvageria do outro o atinge.

Pouquíssimos estados têm política enérgica contra as drogas. A maioria assiste, sem sem se sensibilizar, um mundo (um estado) paralelo semeando a morte pelas drogas: é um problema que não existe, se consigo me manter longe do círculo da violência e consigo meu baseado. O jeito mais fácil de acabar com um problema é fingir que ele não existe (ou adulterar as estatísticas).

As armas têm um poder que pouco se reflete: o poder dissuasório. Boa parte dos esforços das Forças Armadas, gastando rios de dinheiro em tecnologia, se dá porque a posse de uma tecnologia faz o inimigo pensar duas vezes antes de provocar. O poder dissuasório é um conceito militar de que todo cidadão deveria estar consciente (pesquise sobre isso!) e que os homens (falo homens, incluo as mulheres) deveriam praticar no seu microcosmo.

7 - Armas: como lidar.

Defender o porte de armas é então sair de valentão por aí? Poderia até ser, mas eu quero falar de uma sociedade de pessoas adultas. Mesmo porque a proibição por si só não elimina o fato de bandidos terem armas. Numa sociedade de pessoas adultas, ter uma arma é como ter mais uma ferramenta numa caixa de ferramentas, enfocando a dissuasão.

Faço uma analogia com a prática do violão clássico. Existem técnicas repetitivas que são um pouco doloridas, pela insistência, pela repetição, pela força na permanência: tanto arpejos, quanto escalas, ligaduras etc. É preciso saber tocar em situações extremas para poder ter precisão nas partes delicadas da música. Até para a delicadeza é preciso ter uma firmeza no movimento, uma tensão com a força correta. Sem a técnica, não se regula a força: o delicado sai ora forte, ora fraco, enfim, fica inconstante e amorfo.

Na vida, certas habilidades são universais, podem ocasionalmente ser demandadas. Mas é bom ter uma preparação, tanto na habilidade física, quanto na firmeza psíquica, para saber enfrentar as situações. Infelizmente a nossa sociedade dá uma educação imbecilizante, que nos faz lembrar dos nossos direitos, mas não dos deveres, que nos desenvolve a cobiça mas nos afasta da responsabilidade. Apenas aprendemos teoria, e uma teoria bastante duvidosa de caráter ideológico.

A verdadeira educação é voltada para o homem pleno, que sabe enfrentar as mais variadas situações humanas. Nesse ponto, importa menos o conhecimento técnico que as várias profissões nos conferem. Isto reflete o principal problema da nossa sociedade, que não é capacitação, mas é um problema de moral e de hierarquização dos valores. Conseguimos ser bons médicos, engenheiros e advogados, mas somos despreparados para lidar com o nascimento (pais infantis), com as brigas cotidianas (sócios ou casais infantis) que levam ao rompimento, com a morte (desespero com a perda dos entes queridos) e com a violência: somos reféns dos bandidos e achamos que é um dever do estado nos dar a segurança a que temos direito.

Então o procedimento adulto é um homem capaz de lidar com as situações. Mas isso é uma capacidade potencial, que envolve todos os aspectos humanos, a começar o espiritual. Portanto, não é se trata de buscar brigas e responder agressivamente à primeira cara feia. Pelo contrário: o homem deve procurar a caridade: a afirmação do bem. Em último caso, para não se eximir de sua responsabilidade, deve saber responder à violência, de forma proporcional. Para isso, devemos estar prontos para.

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ARTIGOS DA SÉRIE:
1 - Violência e legítima defesa;
2 - Hierarquia e disciplina (apresentação da série);
3 - Estado e poder constituinte;
4 - Militar como cidadão pensante;
5 - Contra-revolução de 1964;
6 - Reflexões Estratégicas;
7 - Ideias da guerra e guerra das ideias;
8 - Positivismo, a falsa certeza;
9 - Problemas estruturais das FFAA.
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