segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Revolução e contra revolução


Acompanhando um movimento e após ler o seu principal livro (título acima), quero comentar os pilares de um movimento chamado "Tradição, Família e Propriedade", sustentado no Brasil pelo Instituto Plínio Corrêa de Oliveira. É um movimento que por origem e atuação pode ser classificado perfeitamente como reacionário. Mas reação a quê? A resposta é simples: a tudo que deseje destruição. "Revolução e contra revolução" tem nortes simples, de fácil apreensão e que podem ser meditados infinitamente, sempre rendendo sabedoria sobre a essência e conduta humana.


Os pilares da revolução são dois: igualitarismo e liberalismo. E o meio principal é a revolução das tendências, que se dá por duas formas: em alta velocidade e morosa. Ao levantar o estandarte da tradição, família e propriedade, esse movimento visa sustentar e explicitar o que essa tendência desejar corroer aos poucos. Ele nasceu do espírito estritamente católico romano, em que trata a Igreja da única forma possível: a cosmovisão em direção à qual alinho a minha vida.

Sendo uma característica da civilização ocidental, com auge na idade média, o ordenamento da sociedade conforme à Igreja começou a sofrer a corrosão pelas tendências a partir do renascimento. A característica do pensamento em questão é alinhar todos os acontecimentos -- cujo caráter é essencialmente a ruptura  -- históricos em torno de uma explicação comum. Qual é a relação entre humanismo, renascimento, protestantismo, iluminismo, comunismo, nazismo, revolução cultural? Aparentemente são coisas dispersas sem relação umas com as outras. Mas a alma humana parece almejar o universal, de forma que investigar seus desejos profundos, sua psique, pode dar uma chave para explicar o espírito que impregna os homens de uma época.

No entanto, Plínio Correa de Oliveira relacionou todas essas rupturas num eixo histórico constante. Parece-me muito interessante essa análise e foi o eixo mais convincente que vi. Relaciona várias mudanças da ordem das coisas (cada uma propondo uma partida do atual para uma mira ideal), basicamente como um afastamento da concepção católico-romana do mundo.


Antes de mostrar o que o autor quer dizer com tendências, cumpre verificar os polos claros de rebeldia contra os quais a revolução investe. E é interessante notar como os inimigos da revolução impregnaram certos pressupostos hoje inquestionáveis. Vou passar por uma demonstração menos lógica e mais através de imagens.

O igualitarismo investe contra a hierarquia. Nada pode estar acima, nem abaixo. Não existe nada melhor, ou pior. Não pode haver elites: ricos, intelectuais, ascetas, artistas, cientistas, juízes, padres, reis. É uma sociedade com autogestão em que, basicamente, todos devem ter a estrita percepção de igualdade. Não deve haver reverência ao melhor, ao exemplo, ao modelo, ao correto, à autoridade. É a rebeldia contra a ordem externa.

O liberalismo investe contra a virtude. Posso tudo, não devo satisfação a ninguém. É amesma rebeldia acima, só que contra a ordem interna. Tudo é igual, nada é diferente, nada é salutar. Como as pessoas mantém sua dieta, se são promíscuas ou não, se são adeptas ou não da caridade, se fazem esporte ou jogam videogame, se são cultos ou se só gostam de amenidades... nada disso é questão para reflexão: é mera escolha indiferente. Não existe melhor, pois no melhor reside a tirania.

Interessante traçar o paralelo: o liberalismo está para o indivíduo assim como o igualitarismo está para o social. E nisso vemos uma tendência que perpassa desde o microcosmo (o indivíduo) até chegar ao macrocosmo (a ordem social). Essa tendência quer extinguir as cadeias que prendem o homem, mas ao contrário: empurra o homem para a escravidão e morte. São dois polos extremistas, que parecem inconciliáveis. Mas é a incapacidade moderna de raciocinar com o contraditório que faz hordas optarem por um ou outro radicalismo. E os dois radicalismos (indivíduo vs social) parecem levar a lugares diametrais, mas chegam no mesmo lugar: acabam com a harmonia do homem com o tecido social.

Mas por que tendência? Ela é o eixo que encadeia os fatos numa constante silenciosa, que é a caminhada morosa. São as tendências de configuração dos hábitos individuais e sociais. O homem de hoje visa a pureza, quer empatia com o próximo, reconhece verdades objetivas? Ou prefere o relativismo e a indiferença, numa massa aforme? Indiferença com o próximo, com as coisas, com os hábitos. É um homem sem graça. Devagarzinho o homem deixa penetrar no microcosmo e no macrocosmo hábitos que afrontam a ordem vigente: ao fazê-lo, forçam que o homem e a sociedade saiam do eixo, para se acomodar em outro lugar. Corrompendo os costumes, a ideologia de uma nova ordem deve ser formulada, pois a ordem anterior já não a comporta.

Mas isso não basta. Na caminhada, o homem precisa de um destino, uma chegada. Daí que a revolução precisa estender um estandarte hipnotizante, que fascine as pessoas com sua utopia na terra. Por isso a necessidade da irrupção abrupta por meio da marcha em grande velocidade. Pelo seu radicalismo, é fadado ao insucesso, pois os homens comuns são prudentes e rechaçam grandes mudanças. Mas se torna um ponto de visada para onde a caminhada morosa acaba por mirar. Em longo prazo, as duas forças se unem e dão uma cadência firme, que quer passar por cima de tudo.

Mas por que tudo isso contra a Igreja Católica? Ué, ela tem tanta importância? (se é que tem alguma...) Seria isso um proselitismo do Lauro? Essa rebeldia contra o superior e contra a pureza ataca os alicerces da Igreja. A Igreja basicamente coloca a história do homem com Deus o centro do universo: no início era Deus junto do homem, criatura dileta à sua imagem e semelhança; a rebeldia contra a ordem estabelecida por Deus (era literalmente uma ordem: "não comerás desse fruto"), permitiu que a impureza entrasse no mundo; Cristo veio recomprar o homem de sua condição miserável, a preço de seu sangue. Cristo é figura central, reconcilia a carne com o céu, é Deus e homem, é exemplo e palavra, é sacerdote e sacrifício.

Contra isso surge a revolta contra o superior. Pensem na estrutura piramidal militar, com estrita obediência de cima pra baixo: não existe ninguém igual a ninguém: sempre um manda e outro obedece. Pensem no governo, com leis, autoridades, policiamento, julgamento. Pensem no Papa, nos bispos, nos padres. Pensem na reverência aos mais velhos (constante em TODAS as culturas). Pensem até na hierarquia celeste.

Contra isso surge a revolta contra a pureza. Pensem na higiene, na dieta balanceada, na saúde física, na castidade da relação em casal (que não emporcalha uma família com infidelidades e imundícies), na sanidade das faculdades mentais, no bom gosto com as artes, na boa disposição das coisas (arquitetura, urbanismo). Pensem no belo: ele existe e zomba de quem duvida dele, dessa gente rastejante, sorrateira, subterrânea.

Revoluções que chegam ao mesmo lugar. Red+volvo, volto pra trás (como a mulher de Lot, saudosa de sua antiga vida), é o que eu faço quando retorno às antigas tradições profanas. O culto aos ídolos inferiores: o prazer, o dinheiro, o poder etc. Pra ver como o enfoque é a escravidão, basta uma imagem. No império romano, escravos eram colocados em orgias para que ninguém reconhecesse quem era filho de quem, de forma que não se poderia ter identidade, família, significado: o homem era coisa. E o que querem fazer com a família hoje?

Liberalismo e socialismo se prestam para escravizar o homem. Não há diferença, mas só confusão, para que as pessoas se dividam e se desagreguem ou no egoísmo ou na massificação.

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Publicado no Facebook em 01/06/2014

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