A pedidos, escrevo um texto que seja para refletir o que eu penso. Em outros textos, escolhi temas e discorri, muitas vezes de forma neutra (claro que tendenciosa, ao colocar uma visão bem definida), criticando posturas e clareando conceitos que acredito que são ignorados frequentemente. Aqui serão opiniões brutas e soltas, sem lá muita argumentação. Parecerão intragáveis, pois não terão o apelo imediato da linguagem corriqueira.
Em primeiro lugar, oriento minha vida de acordo com princípios, implicando numa cosmovisão¹, que no meu caso é a católica. Isso implica num credo e nosmandamentos, análogos na vida real aos contrato social e missão numa empresa. Os mandamentos têm virtudes que nenhuma ciência alcançará: são diretos e sintéticos; são concretos (fácil interpretação, aplicação imediata) e úteis; expressam verdades sobre a essência dos atos humanos (e, por consequência, do universo). Deles derivam quase tudo que falarei aqui.
Deus. Existe e, por sua definição, deve ser reconhecido e louvado. Uns se dizem ateus, outros agnósticos. Pra mim existe duas coisas: viver como se Deus existisse ou não. O agnóstico vive como se não existisse; às vezes o mesmo fazem os cristãos. E não é questão de ter alguém fiscalizando os meus atos. É questão de que meus atos têm um sentido e uma finalidade universais. Deus é a medida de tudo, o princípio e fim fim, o verdadeiro agente donde provêm todas as graças. E fé, concluindo, não é só profissão com palavras, mas também com atos: em Deus palavra e ato coincidem, devemos imitá-lo.
Filhos. Compartilho a opinião de um indiano: um filho é uma bênção mútua entre pais e filhos. Penso nas frivolidades de hoje, gente gastando em refeições, viagens, lazer etc. Penso que diferença isso faz. E dizem que querem poucos filhos ou quase nenhum. Por outro lado, o filho demanda recursos e tempo. E o tempo é o ato de maior consideração com alguém, é a verdadeira caridade. As pessoas estão cansadas de pessoas, querem coisas e mais coisas, as quais possam fruir, comer, visitar ou mesmo trepar. Não há dívida maior que a do filho com perante o pai.
Família. Deriva dos filhos, mas não só. Existe o casal, homem e mulher, cumprindo suas funções. O amor deles é a cumplicidade, o núcleo fechado, assim como entre Cristo e a Igreja. Mas hoje até a conquista de um esposo(a) é um incômodo. Ninguém suporta a reação, a desaprovação, o diferente: partem para o bruto e selvagem, o meramente sexual, linguagem mais simplificada (para não-humanos). Facilmente se entende porque não se forma vínculos, pois o homem tem faculdades superiores para trocar em casal.
Sociedade e pátria. Eu, minha família, minha cidade, meu país: a proximidade me traz compromisso de honra. O tecido social me ampara tanto quanto o carinho inicial que recebi desde bebê. Deve haver nacionalismo, pois isso representa o plano de fundo da formação de nossas imagens. Ao mesmo tempo não precisamos ser xenófobos. A pátria defende seu modo de ser, como se fosse um indivíduo e nisso deve estar seu brio.
Simplicidade. Existe uma virtude militar que é a assertividade. A língua dos romanos primava pela brevidade, até em contraposição aos orientais rebuscados; os romanos, antes da degenerescência dos costumes, eram simples, rústicos, diretos e não tinham ambiguidade. A linguagem com excesso de meandros dá margem a tudo, ao inconfessável, às más intenções embutidas. A frescura é a representação da falta de objetividade, da perda da essência. O refinamento, como lapidar das relações, é bom. Quando degenera em excesso de frescura, já não presta pra mais nada.
Vícios. Volto ao primeiro ponto: Deus. Aqui se testa a fidelidade a Deus. Pois quem se rende aos vícios, se afasta de uma postura firme e se deixa levar por coisas que o controlam. Essa é a essência do vício: controlar. Ser imagem de Deus é ser senhor de si, praticar a liberdade. Os vícios espalham destruição em si e no mundo, adoecem. Ouvir funk embota a alma e talvez seja pior que torrar os neurônios com maconha. Viciar-se em coisas ruins, ocupar seu tempo com merda. Chega a ser idolatria: entregar a vida por algo em vão (vaidade), sem importância e estúpido. O vício desvia o uso de coisas neutras: remédio (droga, cerveja), comida (açúcar), televisão (burrice), música (aquela música ruim que não sai da cabeça), sexo (seja o abuso heterossexual, ou a capricho homossexual).
Transcendência. O materialismo pra mim é um dos raciocínios mais depressivos (dó alheio). Não que haja espírito e matéria como dois mundos distintos: isso é apenas uma divisão didática, assim como matéria e forma. O que há é um contínuo do sólido à rarefação, em que realidades sutis não são apreensíveis pelos sentidos ordinários. Ou alguém acredita que uma pedra, em reações aleatórias (quem afirma isso não pensou em termos probabilísticos, em que esse mundo não existiria), chegará a executar um dos atos mais misteriosos? que é o da vontade: de manter metabolismos e ciclos; de se aproximar ou afastar; de saber, de fazer o bem. Os imbecis falarão que a vontade é uma ilusão criada pela evolução.
Homem: o agente na terra. Quem age são os indivíduos. O resto - estado, instituições - é abstração. O estado nunca me resolverá nada, pois só indivíduos criam riqueza. O estado é apenas uma ferramenta para que indivíduos se organizem. Burocracia, impessoalidade, excesso de dispositivos legais: tudo isso só atrapalha. A tendência é sufocar o indivíduo, já que o estado tende criar estruturas partindo-se do pressuposto que o homem não é confiável.
Esquerda VS Direita. É melhor descrita como Progressismo VS Conservadorismo. A questão econômica não parece definir bem, pois ambos podem fazer crescer o tamanho do estado ou aumentar a liberdade ao extremo (e o bom seria o equilíbrio). O ótimo é sempre o meio. Eu é que particularmente acho que existe um desequilíbrio dos poderes para a esquerda, considerando-se principalmente a opinião em voga, o teor dos debates que predominam. Talvez no íntimo haja mais pessoas de direita. Ser de direita agora é o reacionarismo mesmo: em todo o canto do mundo vemos a semeadura do ódio e do sectarismo, jogando classe contra classe (sexo, cor, dinheiro, etnia etc.).
Questões polêmicas dentro da Igreja. Sinceramente, em termos morais, acredito que as religiões sérias não têm muito a discordar. As prescrições religiosas têm sempre efeito salutar, incentivando a moderação e o retiro espiritual. Mas um ponto específico é muito atacado na Igreja (ninguém discorda muito do "não matarás", por exemplo), que é a sexualidade: o aborto, o homossexualismo, o celibato, a hiperssexualização, promiscuidade. Todas essas coisas vêm apenas negar a finalidade das coisas e deixar o homens em paixões descontroladas. As pessoas sabem que se deixam imergir nelas, gostam de se sentir animais. Esse desregramento, polarização, extremismo, não permite que sublimem-se todas essas coisas em algo verdadeiramente humano. São animais, e com muito orgulho! (quantas falsas doutrinas nos repetem isso, a fim de que acreditemos?)
Hierarquia. O orgulho (ainda hoje!) é mandar e não se deixar mandar. A auto afirmação do ego precisa disso: revolta contra tudo que se imponha ao ego. Ordem é uma ofensa. De fato, o mundo acaba quando fazemos algo contra a vontade? (não estou falando de abuso, de arbitrariedade, de mandar para demonstrar poder) Pelo contrário, os grandes santos louvaram a obediência, não porque com isso as coisas se resolvem melhor. O espírito da obediência é o da humildade. E a vida faz crescer naturalmente. Ao nascer a criança tem discernimento para escolher coisas pra si ou (pior) para o mundo? Ao ganhar confiança, uma pessoa recebe poder gradativamente. Se eu chego pra ser atendido numfast food, o pedido terá o formato de uma ordem. Vamos nos revoltar contra tudo então? Mesmo ser sempre inferior é uma oportunidade de louvar a Deus, renunciando à agressividade e à malícia.
Liberdade. O homem nasceu livre. Mas nasceu restrito. Ele não pode ser uma vaca, não pode ter nascido de outra família, não pode estar em dois lugares ao mesmo tempo, não pode viver para sempre. Mesmo assim, existe muita margem para a criação e essa é a vocação do homem. Ele não deve se revoltar contra o que o determina, mas deve pacificamente aumentar seu horizonte de livre ação. E permitir que os outros possam se realizar. Pisar no outro só de raiva, não permitir que ele consiga: isso é maldade, nunca terá justificativa. Mas as pessoas não cansam de praticar.
Faculdades do homem. O homem é matéria, é metabolismo, é animalidade, é espiritualidade. É tudo ao mesmo tempo. Essas coisas nem sequer são separadas: não é como um bolo com vários ingredientes. Cada ingrediente do homem contém todos esses aspectos. O homem deve fazer todas as suas necessidades fisiológicas. Mas ele devem aspirar as coisas do alto. Mas aspirar as coisas do alto não é abandonar esse mundo para um mundo de espírito. Agir como homem é impregnar a realidade de espírito, revivificar as coisas assim como Deus renova tudo. Por isso, todas as nossas ações devem mirar o universal, para que sejam repletas de significado.
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¹ Cosmovisão é orientar todos os fatos que ocorrem no mundo a um princípio que ordena e dá sentido a tudo. Com isso, não há nada no mundo que não fosse necessário, e tudo aponta para um lugar. Assim, o agente direciona suas ações tentando sempre mais clarear sua cosmovisão de forma a conseguir traduzi-la para a realidade. Cosmos não é universo, mas no grego significa antes ordem._____
Postado no Facebook em 27/03/2014
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