Se o homem é uma ponte entre o material e o espiritual, naturalmente a ponte, a alma, deve compartilhar dos dois mundos. A matéria é que dá realidade e presença, ela é mutável e amorfa. A força do espírito molda a matéria segundo as leis universais, a eternidade. A alma é a ponte entre o momento mutável e o eterno.
O ser conforma o que se nos apresenta como sentido/sensação, as impressões surgem na alma. Ao mesmo tempo o dever ser constrange a alma direcionando-a na sua forma de agir. Alguns compromissos da alma são para suprir o corpo: reagir contra o frio, proteger contra agressões, conseguir alimento, prorrogar a espécie. Outros são compromissos com a consciência: buscar a justiça, a pureza, a beleza (as formas proporcionadas), a bondade, a gratidão. E existe um contínuo entre os dois polos, desde a sobrevivência, passando pela aceitação/simpatia grupal e pelas convenções sociais, até o amor desinteressado.
Olavo de Carvalho garimpou na obra de Aristóteles a Teoria dos Quatro discursos. Ela verifica quatro possibilidades de discurso, numa linha com dois extremos: a riqueza da experiência por um lado, a precisão do discurso em outro. Na poesia existe o manuseio livre da abundante realidade e das experiências possíveis do homem. Na retórica o discurso é manipulado para que se atinja a alma das pessoas, inflamando-as para algum propósito. Na dialética os conceitos são confrontados em suas contradições e diferentes perspectivas para se chegar em conceitos que superem. Na lógica as proposições são feitas de modo preciso, claro, axiomático.
Embora pareça um caminho natural evolutivo da poesia à lógica, não existe superioridade. A lógica nunca terá a riqueza (contraditória, diversificada) da poesia, que é a própria realidade, a linguagem. A poesia nunca terá o discurso unívoco e científico da lógica. Cada um tem sua aplicação.
Hoje, no entanto, a riqueza de cada discurso foi perdida na cultura de massa. Hoje o que existe são os bordões e os rótulos. É a macaqueação da retórica: ao ver um bordão, ao identificar um rótulo, a pessoa não necessita fazer mais uso da razão. Ela não perpassará a construção gradativa e elaborada entre os discursos. Surgirá nela imediatamente a inflamação, o ódio, o inconformismo: a única reação da sociedade hoje é gritar, simpatizar, repelir.
Já não há mais o manuseio da realidade direta em seus meandros, ou mesmo ou cultivo das artes que intensificam os detalhes e exuberância da vida. Estamos num mundo sem poesia. Substituíram a realidade pelos rótulos simplificadores: já não preciso mais me defrontar com a contradição da realidade, os rótulos da cultura de massa já têm a resposta pronta que eu precisava: o funk, o axé, o sertanejo, as novelas, o cinema, (livro não falo, pois ler cansa)... Aonde que não há a repetição de fórmulas consagradas? Onde foi parar a criação? Criar hoje é colocar um adorno de outra cor, recontar a mesma história, reforçar o mesmo rótulo.
A retórica é o reflexo condicionado. Basta trazer o rótulo, a emoção é automática.
A dialética passa a anos luz. Ter duas ideias discordantes é demais para a mente já atribulada pelos males sociais. Onde ficará o meu alento de me apoiar "naquela verdade" que tanto me conforta? O rótulo simplificou muito as coisas.
Lógica? Num mundo de analfabetos, pra que querer coesão? Ora, querer estar certo é pretensão, orgulho, não é mesmo? Num mundo do relativismo, subjetivismo, nesse primado cético que nada afirma, falar sobre o certo com certeza é ditadura. Mas a lógica se afirma, não tem jeito. Lá onde a geometria e a matemática brilham, não há como ofuscar. Enfim.Abdicando à razão, sobra apenas escolher o que traz mais apelo. Justamente nessa nossa sociedade de pessoas ávidas pelo gosto mais intenso. Buscam, buscam e buscam. E não sabem que o que querem é sutil e faz referência ao espírito.
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Postado no facebook em 11/12/2013
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