![]() |
| Frei Betto, Marina Silva, Silas Malafaia |
Em tempos de eleição, defensores do estado laico reclamam que as Igrejas impõem algumas pautas e dirigem o debate político, havendo assuntos mais importantes a serem discutidos. E essa reclamação já não é de 2014, mas remonta a eleições passadas.
Para comentar o que é família, passo por quais sejam as opções que uma pessoa tem para levar a sua vida. Por um lado temos o trabalho que visa dar o sustento, a não ser que se tenha dinheiro fácil para gastar. Por outro temos a vida afetiva da pessoa, que pode ser levada de várias formas. A sociedade tradicional dava duas opções: casar-se ou ficar solteiro. Hoje em dia se celebra como ganho uma ampla gama de opções, que parecem estar no meio do caminho entre esses dois extremos.
Uma vida sozinha pode ser opção por vários motivos. Simplesmente não pensar numa companhia e ir levando a vida é uma opção. Não ser desejado por ninguém é uma fatalidade. Às vezes tem a barreira da timidez. Por outro lado a continência sexual pode ser uma opção: a consagração da vida a Deus.
As opções modernas parecem tantas quantas são os desejos. E o desejo aqui deve ser sexual, pois não estou falando de amizade, coisa que pode surgir em todas as atividades nossas, mas não tem a ver com compartilhar a fundo a intimidade. Em termos de compromisso, há as ficadas, os namoros eternos, os longos noivados. Há também críticas à monogamia e à "heteronormatividade", assim como alusão à pedofilia, zoofilia, necrofilia...
Essa foi uma perspectiva sexual da definição da família. Mas a família envolve uma coisa diferente, sem a qual fica descaracterizada por aquilo que posso chamar de mera "união pelo prazer". As crianças são o grande diferencial da família e a necessidade da família surge do fato de que toda criança é indefesa e incapaz (do sustento e de responsabilidade jurídica).
Penso, por exemplo, no caso de pais solteiros, comum entre celebridades. A primeira impressão que fica é do distanciamento de pais e filhos. Normalmente vejo a imagem do famoso distante da imagem da família (porque não há), de forma que ele pode fazer filhos com qualquer pessoa "solteiramente", restando uma combinação doida de pessoas e filhos espalhados por aí, com uns perdidos por aí com a guarda de fato. É só pra mim que essa imagem parece impessoal?
Será que é antiquada aquela imagem da família nuclear, em que existe um todo fechado e harmônico, centrado no propósito único do verdadeiro companheirismo do casal? Será que a dualidade homem-mulher é uma imagem sem significado, sem importância? Será que este arranjo, com suas várias imagens sutis, exemplos nos detalhes, é indiferente à formação psicológica da criança?
Surge uma terceira pessoa interessada nessa relação: o estado. Na sua versão totalitária, está interessado na mente das pessoas. Quer tomar a educação desde a tenra idade, desde o berçário. Nada melhor que uma sociedade em que homem e mulher tenham que trabalhar de forma extenuante (maior força de trabalho, menores salários) e o filho caia não mão das terríveis escolas de hoje (ou babás), com seu péssimo ensino e ambiente. Professores que ganham pouco e com mãos amarradas. Crianças assediadas pelas drogas e hipersexualização.
Tem umas mulheres carentes aí que são mães solteiras de cachorro, gastam com ele mais do que gastariam com uma criança. E tantas outras por aí para adoção. A carência me parece ser a maior força que junta as pessoas. Somente duas coisas parecem fazer com que as pessoas não busquem companhia: um forte ascetismo; ou uma forte inocência.
A regra fundamental da busca da companhia é: afinidades, ou seja, comunhão de propósitos. A frase que diz que "os opostos se atraem" é uma grande mentira, pois é apenas um fetiche por este objeto sexual. Mero sexo não tem a ver com companhia: é uma negociação a dois, troca da serviços de prazer, sem ônus para as partes. Somente duas pessoas com um propósito podem fazer uma família coesa. Que exemplo de sentido poderá ter uma criança solta?
A família, assim como a definição sexual, só pode se definir a partir dos fatos concretos e não da classificação dos desejos (que são múltiplos e passageiros). O surgimento de uma nova vida... é isso que define uma família, mesmo que ela tenha se formado com outras intenções. E a dedicação a essa vida é a medida para o maior dos atos humanos: a caridade.
Justamente a frieza com as pessoas é que gera não-homens, crianças delinquentes, maus profissionais, falta de consideração, corrupção etc. Estamos lidando com pessoas ou com coisas? E, depois disso tudo, eu vou classificar a minha vida, a minha sexualidade, a minha família, de acordo com os meus prazeres? As pessoas só importam (ou importunam) na medida em que afetam meus prazeres?
É exatamente por isso que vivemos na sociedade do abandono. Desde as crianças abandonadas por lares desfeitos, até indigentes abandonados por sociedades frias. A orientação para o prazer é o culto ao egoísmo. É a idolatria de si. Pois se fecha a tudo que não seja o que a sua psique elegeu para entrar em sua vida, qual seja: o prazer mesquinho. A falta de compromisso é a outra face da falta de consideração. Lealdade... pra que?
A negação da família é uma negação dos fatos, trocados por conceitos psicológicos fracos, frívolos e inconstantes. Nega-se o homem e a mulher. Nega-se a função de pais e de filhos. Nega-se que só de homem e mulher nascem filhos. Em troca, misturam tudo. Ao prazer erótico aleatório, associam a família. À dualidade de funções do pai e da mãe, associam seres amorfos (dois homens, duas mulheres, N pessoas, ou... o estado) para a criação dos filhos.
Família já não é o que sempre foi. É qualquer arranjo que a imaginação permita. É tudo, ou seja, nada. Foi desconstruída.

Nenhum comentário:
Postar um comentário