Nesta minha primeira postagem, começarei uma série de artigos sobre a Negação, que é um aspecto do duplipensar. Uma série que inclusive demonstra uma característica de minha personalidade, que é a repetição: assim como variações sobre um tema musical. Duas coisas que faço sempre: direcionar assuntos quaisquer e relacioná-los com um mesmo foco; partir de um mesmo foco para falar livremente sobre vários assuntos. Aqui será o segundo caso.
No semestre em que frequentei o departamento de psicologia da universidade -- sou formado em engenharia -- para uma matéria que fazia sobre Linguagem e Pensamento, me deparei com uma notícia de jornal afixada no mural do departamento. Considerando que aquele era um ambiente em que pessoas se condicionam a suspender quaisquer julgamentos sobre normalidade e anormalidade, aquela era uma notícia que deveria estar ali.
Não lembro do autor, nem exatamente do título. Lembro do espírito. Era algo sobre as vantagens evolutivas no autoengano, escrito por alguém na área de biologia -- parece que existe uma fixação em algumas áreas da psicologia quando a biologia acha mais um aspecto instintivo baixo do homem. A tese era simples: avaliava que os homens acostumados a mentir para si mesmos traziam uma vantagem competitiva na seleção darwinista.
Nessas horas que relembro perfeitamente o que é mesmo o método científico: parir um modelo da cartola e confrontá-lo com a natureza. Ora, não parece a tese perfeita para essa nossa sociedade hipócrita!? Talvez seja mais uma tese perfeita, tal como as que reduzem o homem a um ser econômico egoísta; ou como as que o reduzem ao macho mais forte procurando a(s) fêmea(s) com as melhores ancas.
A tese em questão é a versão científica de um enunciado tácito espalhado na boca do povo: é melhor não levar-se tão a sério! O engano pode ser um equívoco, uma ilusão sem intenção. Mas o autoengano já é uma postura ativa e consciente. E ela só pode se dar com passos gradativos a partir da consciência em direção à completa inconsciência (imbecilidade). Uma coisa é fingir aquilo que os outros querem ouvir. Mas a perfeição só se dá quando eu mesmo me convenço daquilo que não acreditava.
O autoengano é a negação dos próprios princípios. Considerando que a consciência é o que representa o mais fundo de nossa identidade, o mais fundo daquilo que dizemos de nós mesmos: seres humanos. Eu poderia ser um escravo na Roma antiga, ou terminar-me escravizado nas rotinas sem sentido do trabalho despersonalizado de hoje. Mas o direito de pensar ainda me manteria a dignidade humana. Por isso que desde tempos imemoriais (até hoje, claro!) que se exige a negação da profissão de fé.
Ora, a minha "profissão de fé" consiste nos pressupostos metafísicos adotados por mim para julgar todas as coisas ao meu redor: quais devo manter próximo de mim, quais longe; quais devem ser moralmente condenadas pela sociedade, quais não; quais são prioritárias, quais não. O autoengano é o autoestupro mais grave, tão incentivado na TV, internet, trabalho, amigos etc. A pressão social é imensa, pois nada é mais forte que o desejo de não parecer diferente dos outros.
Eis aí o preço que se paga pela integridade. Muitos acham muito caro, pois a vantagem nem é grande.
Muito bom! Mas negação não existe!
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