quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Felicidade

A profecia de Fátima anuncia grandes tragédias para a modernidade. Com certeza a maior punição na modernidade é conviver consigo mesma, é estafar-se com seu tédio, com sua distância. É a sua frieza nos relacionamentos, já não mais entre pessoas, mas entre interesses. Não são homens, são coisas.


Se lido com empresas / instituições, os funcionários se comportam mecanicamente. Se tenho amigos, eles só se mantêm por trocas e da por lealdade criminosa. Se amo, é pela capacidade do outro de me dar prazer. Não sou dono de uma empresa, mas estou por detrás de uma sociedade anônima como acionista, pela qual ninguém responde com sua própria reputação. Se compro um produto, não sou capaz de avaliá-lo, preciso da chancela do selo de qualidade. Os direitos do homem -- tão comemorados! -- são a capacidade mesquinha que eu tenho de acionar a justiça.

Não existem pessoas. Existem aquelas coisas que permito entrarem no meu redil, conforme o acordo dos interesses comuns. Não existe concórdia, existe ameaça, chantagem, imposição, submissão: é tudo um negócio, uma feira de interesses. Não sou eu e outro: são apenas  dois impessoais (personagens) a se relacionar por meio das interfaces e garantias do estado. O relacionamento é negócio; a vida é competição / sobrevivência / seleção; qualidade de vida são atributos quantificáveis; felicidade é acúmulo de momentos. As coisas são indiferentes, pois são conversíveis em dinheiro. As demais coisas nem sequer existem. A felicidade é tempo, é dinheiro, é conquista.

O homem se tornou avaro e guloso. Está sempre inquieto e insatisfeito. Sempre pode acumular mais, seu pote é infinito. E ele se gaba de tudo que acumulou. Todos os seus momentos são controlados, ele não permite que entre em sua vida senão o prazer. A vida não pode comunicar-se com ele, pois ele está fechado para o mundo que não controla. Ele só está aberto àquilo que apenas reforça o que ele mesmo é.

É a visão do inferno ter que conviver com pacotes herméticos da felicidade: a felicidade das gôndolas, a felicidade de roteiro de seriado, a felicidade dos ídolos de sucesso, a felicidade despojada e sem fracassos. A felicidade com receita e planejada. Testada e aprovada. A felicidade que recusa outra coisa que não seja ser feliz. O imperativo da felicidade, o botão em que eu me ligo em modo felicidade. A felicidade que serve para eu contar de vantagem, contar para os netos, que inscreverei até em minha lápide. Afinal, sou cheio de méritos, independente e dominador... em suma: auto suficiente no narcisismo de minhas realizações.

Quando que a felicidade poderá ser apenas um presente que eu não esperava? Que, súbito, recebo de graça? Afinal, um mundo sem a graça, não se tornará um mundo sem graça?

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Postado no Facebook em 13/05/2014

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