quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Docilidade à moral

"Uma outra consequência derivante da revelação sobrenatural consiste na eliminação deste vício que é a presunção humana, presunção que constitui a mãe de todos os erros. Certos homens, com o efeito, confiam em tal ponto em suas capacidades, que timbram em medir a natureza inteira com o metro da sua inteligência, estimando verdadeiro tudo que enxergam e falso tudo que não enxergam. A fim de que o espírito humano, liberto de tal presunção, pudesse conquistar a verdade com modéstia, era necessário que Deus propusesse à sua inteligência certas verdades inacessíveis à sua razão."
São Tomás de Aquino, Suma Teológica.



O hábito do espírito crítico moderno é ter uma opinião para tudo, seja nos aspectos político-sociais, seja na esfera das íntimas escolhas pessoais. O liberalismo nos ensina o pluralismo das opiniões e o respeito à opinião de cada um. Mas tendendo ao politicamente correto.

Sabe-se que a crítica não constrói, mas apenas elimina (destrói) o que não é útil. Kant achou que sepultou a metafísica, assim como Nietzsche a Deus. A sociedade crescida, o indivíduo independente e "consciente" é capaz de andar pelas próprias pernas. As fantasias, misticismos e crendices foram relegados ao folclórico, só museu, ao saudosismo niilista.

Não quero refletir sobre as opiniões que se têm sobre a sociedade, mas prefiro ver como essa mentalidade permeou a psiquê atual. Na verdade é a mesma coisa, como em micro e macrocosmo.

A sociedade criou dois tipos de julgamento possíveis:

  1. Tecnicista. Reduz-se aos julgamentos que demanam da comunidade (sacerdotal) científica.
  2. Subjetivista. Reduz tudo às vontades arbitrárias, relativas e mesquinhas que cada um tenha na sua liberdade aleatória.*
Só que aquilo que é eminentemente humano está dentro da esfera moral, ou seja, a técnica não fala dos anseios do homem, mas só das ferramentas. No entanto, pela divisão acima, a moral caiu no relativo / subjetivo. É justamente a esfera em que se aceitam todas as opiniões. Mas é onde se encontram todos os problemas.

A crítica eliminou a metafísica e agora cada um é o doutor de seu espírito. Não há contas a prestar, pois o deus supremo é a opinião. Para estruturas escutamos o engenheiro e para organismos escutamos o médicos, mas para a alma nós mesmos emitimos veredictos.

Ora, justamente é da alma que vêm a sede e é dela que nascem os problemas, as injustiças e as incompreensões. Só pessoas mesquinhas pra acharem que são suficientes a si mesmas. O nome disso é egoísmo.

Para cada faculdade humana há uma ciência. Por ventura podemos dominar uma ou outra. Mas dominados todas? Claro que não. Mas os nossos julgamentos, no alto de sua importância, fingem que sim.

Muitas vezes eu sei deduzir o que é bom fazer num caso relativo à moral. Mas, se não sou capaz de compreender, me submeto à sabedoria de quem se preparou. Inclusive é um ato de humildade.

Todas as sociedades costumavam se aconselhar com os anciãos ou com os sacerdotes. Com os primeiros estão os anos de experiência, com os segundos cosmovisão dos antepassados.

Mas hoje vale a opinião fresquinha que cada um acabou de parir. Falando assim, parece até aleatório e espontâneo. Mas essas opiniões ditas "conscientes" não são mais do que a cultura de massas, mesmo que se camufle na pluralidade tribal.

Perdemos a sabedoria dos tempos e perdemos a humildade de ouvir o conselho. É de se espantar essa sociedade infantilizada, que não acredita no pecado, na moral, na sinceridade e na inocência?

É preciso saber os limites do próprio entendimento, reconhecer humildemente quando domino algo e quando é melhor seguir os conselhos e as tradições.

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* Hoje em dia os mais niilistas nem sequer acreditam na verdade. Então toda filosofia é apenas a luta (práxis) para impor algo relativo.

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PS: Como exemplo concreto, observo as críticas feitas às exigências da Igreja quanto à conduta moral das pessoas. Dentre os assuntos morais da Igreja, o mais polêmico diz respeito à conduta sexual. A sociedade de hoje encara de forma liberal diversas situações: homossexualismo, encontros sexuais ocasionais, múltiplos parceiros... sem citar relações censuráveis (doenças mentais). Por sua vez a Igreja estabelece condutas condicionantes: celibato para padres, sexo somente no casamento, não utilização de meios anticoncepcionais (principalmente os abortivos), reprovação de conduta sexual que não seja entre homem e mulher. Eu entendo que em matéria moral há especialistas, assim como cardiologistas entendem como manter o coração saudável. Alguns aceitam seguir a conduta recomendada (para não adoecer e morrer), mas outros se julgam acima dos conselhos das autoridades no tema. Na verdade, eles decidem como se fossem especialistas, com dois minutos de reflexão.

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