Nunca nada tão propalado quanto a criticidade. Hoje é até uma tara sexual observar alguém com ares de discernimento em ver o que está errado. Quanto não se comemora que hoje a sociedade está mais consciente? Entende-se por isso uma pessoa que seja capaz de ver a corrupção política, que sabe quais são seus direitos, que luta pelo o que é certo, engajada etc. Afinal, é um dos focos do nosso sistema educacional para abordar problemas. Mais uma razão para reconhecer que o nosso ensino é uma porcaria.
Já desde Kant a crítica se tornou o modismo. Do grego kritiké (aparentada com a palavra "crise") remete a juízo, discernimento. Foi particularmente usada por Kant para descartar aquilo que não presta, que é inútil: a crítica é ficar com todo o pensamento correto. Com isso ele pensou abolir a metafísica, mas apenas começou o ciclo de cagadas alemãs (precisa falar onde parou, mais recentemente?). O caminho percorrido foi, na filosofia que se segue, o ressecamento do ser humano e a perda de seu valor, do seu significado... da sua humanidade.
Já pararam pra pensar qual é o método ensinado de resolução de problemas? Eu particularmente conheço o método mais eficaz de resolução de problemas: um de cada vez. Mas o método ensinado é o espírito crítico, que quer encontrar os problemas e destruí-los. Quantos não veem alguém a resolver um problema e não fala " isso está tudo errado". Mas a melhor forma de resolver um problema é resolvê-lo. Ao falar que está errado, que problema ele resolveu?
Prosseguindo a imbecilidade ensinada, o gênio moderno aborda todos os problemas com esse método. Quanto vocês não conhecem que sabem dos erros por aí? Que entoam doutorados sobre os erros alheios? Pra não falar dos profetas do passado -- como os economistas que preveem exatamente as causas dos fatos passados. Por que você acham que vivemos numa sociedade explosiva? Porque somos ensinados a ter ódio. Gastamos mais tempo destilando ódio, que sendo otimistas com o que passou e com o que virá. Pensar em como o mundo é ruim talvez gaste a mesma energia que partir pra resolvê-lo.
Mas não! Queremos um povo consciente! Esse povo que pisa e destrói doutrinas e costumes antigos. Pisa e destrói o governo. Pisa e destrói o patrimônio público: quem afinal paga por ônibus queimados, senão nós? Afinal, sou eu que sei!, os outros apenas representam o passado retrógrado. Aonde chega o espírito de revolta? Mas ele foi muito cultivado, como lazer (masturbação mental de intelectuais) e como manipulação de pessoas.
O ensino seria muito mais produtivo se fosse construtivo. Ao invés de enfocar o modelo abstrato da moda, pode mostrar técnicas de resolver problemas concretos. Na terna infância, as artes: manuseiam a natureza até dominar sua consistência e cultivam o belo. Na infância, as técnicas de geração de riqueza bruta: manusear um tecido, uma madeira, um metal, lidar com animais. Na adolescência, os avanços mais modernos da técnica: um circuito elétrico, uma engenhoca mecânica etc. Aqui está uma educação básica em direção a um engenheiro. Analogamente pode-se pensar num médico, ou num advogado.
Podem ver que as ideologias (e demagogias) modernas podem vir com muitas propostas. O primeiro fenômeno que vemos é a destruição, pois transborda aos nossos olhos: nada deve restar do antigo. Depois vemos a implantação da utopia. Depois vemos o seu fracasso. Quer saber contra o que isso é? Contra a democracia. Nada mais contra o povo que estar sempre certo enquanto os outros (mesmo os que vieram antes de nós) estão errados. Consequentemente, nada mais anti-democrático que concentração de poder, centralização etc.
Construir e não destruir. E parar de perder tempo apontando o dedo para os outros, listando seus erros.
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Publicado no Facebook em 09/05/2014
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