O convívio social, queira ou não, vai sempre requisitar um padrão de etiqueta. Essa pequena ética regula certos padrões para os determinados contextos. Por exemplo, ao sair para a noite, numa balada talvez, todo o ambiente estará regulado: como se vestir, a luminosidade do ambiente, a música de fundo, como se portar, beber ou não, o que conversar (se conversar), as intenções por detrás do ambiente (confraternizar, paquerar etc.). O desrespeito à etiqueta é uma contravenção social: pessoas te olharão feio, evitarão conversar... enfim, te excluirão gradativamente do círculo social. Isso vale nas situações ordinárias e nos círculos fechados: há um padrão básico a ser seguido em sociedade.
Muitas vezes as convenções sociais são salutares. Ao condicionar bem um ambiente, ele estará propício ao que se presta e a etiqueta colaborará. No entanto, a etiqueta pode se tornar uma forma de controle social, uma ditadura de comportamento. Ora, se o ambiente favorece certas condutas, controlar o ambiente é condicionar as condutas para uma direção.
Uma das regras de etiqueta mais onipresentes hoje em dia é o politicamente correto. Poucos são os círculos em que não vale. Aliás, pouquíssimos: dentro de uma família (se for tranquila), ou uma amizade íntima. Para desacatá-la, há que se fazer muitas ressalvas, ou destacar que é piada, ou mesmo fazê-lo em protesto. Do contrário, passarás por intolerante, burro e mal informado.
O efeito prático dessa onipresença é que as pessoas não se mostram mais conforme o cerne de seus pensamentos, mas apenas na superfície deles. Institucionalizou-se a opressão da falsidade: todo mundo parece simpático, espontâneo, camarada e sincero. Mas só parece. Pois há um policiamento social ferrenho em cima de determinadas opiniões. Mesmo porque, certas opiniões brotam do estado natural do homem.
Claro que o extremo inverso seria a barbárie. Todo mundo cem por cento transparente equivaleria à agressão total. Mas isso que está aí não deixa de ser um desestímulo total à veracidade: as pessoas hoje em dia estão falsas demais. Juntando-se a isso o fato de que vivemos no primado da felicidade e da autorrealização, a falsidade gerou seres humanos perfeitos: bem sucedidos, tolerantes, compreensivos, sociáveis e divertidos. Quem acredita nisso?
Não sei a opinião geral, mas a sinceridade, honestidade é a primeira coisa a se esperar de um amigo, de uma pessoa que se considere de valor. Pois o que esperar de alguém que mente? Qual a confiabilidade nisso? E quando toda a pressão social (educação, mídia e até boca-a-boca) leva ao império da falsidade?
Uns dirão "ah, mas entre nós amigos nos somos sinceros e trocamos confidências". Mas eu não espero que troquem confidências comigo. Justamente se mantenha a intimidade de cada um. O problema é o outro extremo: eu tenho que pensar mil vezes antes de expor qualquer coisa. E a sociedade padronizou o que é bom de se expressar, ou seja, ser politicamente correto é também entrar na massa das opiniões correntes. O bonitinho é expressar tolerância e admiração por todas culturas; enxergar todas as opiniões como boas e justificáveis; pensar positivo e agregar algo na sociedade.
Na verdade, todo mundo já se deu conta disso. Só que ninguém conseguiu as ferramentas pra superar isso. Eu diria que o primeiro passo é evitar de passar uma imagem falsa de si, acostumar as outras pessoas com sua verdadeira face. E tudo isso é muito sutil, pois o nosso mundo parece ser o mundo da sinceridade, da expressão, do atrevido, do inovador. Cultivar as verdade nas pequenas coisas fará com que a mentira para de encobrir as maiores.
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Postado no facebook em 12/10/2013

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