quarta-feira, 10 de junho de 2015

Idolatria da educação

Esperança da nação
Já falei para muitas pessoas sobre essa opinião em questão. Resolvi agora passar em texto. Para muitos estamos no apogeu da civilização. Saímos do barbarismo puro da condição de semi-macacos (na visão darwinista), passamos a cultuar deuses animistas (como o sol, a chuva, o vento), depois cultuamos o Deus único até que chegamos à ausência de Deus. Já ouvi essa opinião de outra forma: no tempo animista, tínhamos a realidade; na Grécia perde-se a realidade e o homem passou a acreditar em si (conhece-te a ti mesmo); na idade média perde-se o homem e confia-se no transcendente; na modernidade perde-se tudo e o homem fica sozinho.


Mas, para alguém cristão essa perspectiva não é verdadeira. Dará mais crédito à interpretação da história como algo cíclico. Como diz o Eclesiastes: "O que foi é o que será: o que acontece é o que há de acontecer. Não há nada de novo debaixo do sol". Em termos de adoração, vemos que o panteão (pan - todos; theos - deus) da modernidade cresce vertiginosamente. Se numa sociedade cristã temos um Deus zeloso, ciumento, que exige fidelidade (fé), hoje vemos o homem acender velas para muito deuses.

E não vou falar da divindade mais famosa de todas: o dinheiro. Existe muita pessoa que coloca sua fé nele, que reduz toda forma de raciocinar a realidade nele. Afinal é a moeda mais fácil, tudo parece ser conversível nela. Também não vou falar dos espiritualismos baratos, como mandingas, horóscopo ou outras evasões em que as pessoas se deleitam com o que queriam que a realidade fosse, esperando que ela mude com a força da vontade. Poderia falar da fama, da vaidade, do poder, do status... Mas tenho um foco preciso aqui: a educação.

Quando entro na ceara política, não canso de ouvir: o futuro está na educação. Põem todas as fichas lá, acendem para isso suas velas e ficam esperando, aí está o elixir da juventude. Ex-duco (educo), conduzo para fora, faço a pessoa conviver  com os hábitos civilizados. Ou mesmo in-signo (ensino), coloco uma marca, um sinal, um conhecimento, uma pensamento. Nada parece mais sóbrio ou austero, com reputação mais ilibada. Afinal, não era o magister (professor) aquele que lidava com as questões superiores, enquanto o minister cuidava dos afazeres menores? Com certeza é uma função de alta dignidade, principalmente num mundo rude de hoje, que justamente se gaba da... universalização da educação.

Obviamente a educação é uma atividade nobre para os padrões das atividades ordinárias. Mas......o mesmo se pode dizer do dinheiro, que representa o fruto do trabalho, a representação da criação humana. Por isso que tem gente que é bravo com bancos e estados que roubam a população: roubar é escravizar, roubar o tempo de trabalho da pessoa. E hoje as pessoas vivem para trabalhar. Mas não falarei de dinheiro!!!

De pequeno a pessoa ouve: "estude para se tornar alguém na vida". Quem tem uma vida mais simples até fala: "eu não tive oportunidade, mas faço questão que meus filhos a tenham". [Paro e penso se pessoas sem estudo são menos pessoas.] Somos conduzidos nas matérias imprescindíveis do fundamental ao colegial até que passamos pelo funil terrível do vestibular, que vai dizer quem tem valor ou não. Chegamos na faculdade e agora preenchemos nossa personalidade: posso desfilar por aí com o jaleco do médico; com os trejeitos e criatividade do arquiteto; com o pragmatismo do engenheiro; com a doutrina e sapiência do advogado; com a esquisitice do programador. Afinal, agora eu sou mais eu... mais fantasiado.

Mas esse é um detalhe superficial. Muitos passam pela universidade e acabam afetados só por isso. Depois do choque de orgulho que o ofício traz, ele volta a ser uma pessoa um pouco mais comum no meio das outras. No entanto, existe uma realidade maior na universidade. Lá os destinos do mundo estão sendo traçados, o limiar do intelecto humano está sendo expandido, um novo culto desponta. Lá dentro vemos semideuses cultuando o imponderável conhecimento: eis aí o deus transcendental, etéreo, impalpável, em que todos põem sua confiança.

O estudante está ciente que lá ele é um ser superior, comunga dos mais altos manjares celestiais. Nada pode impedir sua onipotência. É uma realidade intocável, nem mesmo pela polícia. Os destinos ditados pelo Übermensch não podem ser impedidos: está aí o espírito dos tempos a se revelar. Fumando maconha, bebendo em festas exageradas, fazendo apologia ao que supera o moralismo burguês, revoltado contra o sistema, destruindo e desconstruindo ele mostra que nada está acima dele.Mas o professor do alto de sua cátedra é o sacerdote que oficia os rituais mais sublimes. Na sentença de português indecifrável do jurista; na complexidade da dedução matemática do modelo físico do engenheiro; no desvelamento do mundo para o biólogo; nas estruturas sociais acima das quais paira invicto o cientista social; no niilismo e condicionamento que descobre o psicólogo na mente humana. Aí surgem todos os vaticínios aos quais a sociedade terá que se curvar e dizer amém.

Mas não quero enfatizar a influência social ou política. Não quero vero o que não universidade é fonte de poder ou controle. Quero salientar o espírito de devoção, a confiança que as pessoas despejam... a idolatria mesmo. Ao ingressar na universidade, me senti entrando em mistérios iniciáticos, em que a verdade seria revelada. Uma aula de economia, por exemplo, parecia revelar a sabedoria oculta do pensamento humano - tem sempre aqueles que reduzem a vida à economia, ou mesmo os que reduzem à biologia.

Esse é o espírito que queria mostrar. A pessoa passa por lá, se embebeda dessa realidade mística e depois acaba voltando à vida real dos reles mortais. Uns ficam para sacerdotes. Mas a deferência nesse templo do ex-discípulo será sempre a mesma.


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Postado no facebook em 26/09/2013

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