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| Esperança da nação |
Já falei para muitas pessoas sobre essa opinião em questão. Resolvi agora passar em texto. Para muitos estamos no apogeu da civilização. Saímos do barbarismo puro da condição de semi-macacos (na visão darwinista), passamos a cultuar deuses animistas (como o sol, a chuva, o vento), depois cultuamos o Deus único até que chegamos à ausência de Deus. Já ouvi essa opinião de outra forma: no tempo animista, tínhamos a realidade; na Grécia perde-se a realidade e o homem passou a acreditar em si (conhece-te a ti mesmo); na idade média perde-se o homem e confia-se no transcendente; na modernidade perde-se tudo e o homem fica sozinho.
Mas, para alguém cristão essa perspectiva não é verdadeira. Dará mais crédito à interpretação da história como algo cíclico. Como diz o Eclesiastes: "O que foi é o que será: o que acontece é o que há de acontecer. Não há nada de novo debaixo do sol". Em termos de adoração, vemos que o panteão (pan - todos; theos - deus) da modernidade cresce vertiginosamente. Se numa sociedade cristã temos um Deus zeloso, ciumento, que exige fidelidade (fé), hoje vemos o homem acender velas para muito deuses.
E não vou falar da divindade mais famosa de todas: o dinheiro. Existe muita pessoa que coloca sua fé nele, que reduz toda forma de raciocinar a realidade nele. Afinal é a moeda mais fácil, tudo parece ser conversível nela. Também não vou falar dos espiritualismos baratos, como mandingas, horóscopo ou outras evasões em que as pessoas se deleitam com o que queriam que a realidade fosse, esperando que ela mude com a força da vontade. Poderia falar da fama, da vaidade, do poder, do status... Mas tenho um foco preciso aqui: a educação.
Quando entro na ceara política, não canso de ouvir: o futuro está na educação. Põem todas as fichas lá, acendem para isso suas velas e ficam esperando, aí está o elixir da juventude. Ex-duco (educo), conduzo para fora, faço a pessoa conviver com os hábitos civilizados. Ou mesmo in-signo (ensino), coloco uma marca, um sinal, um conhecimento, uma pensamento. Nada parece mais sóbrio ou austero, com reputação mais ilibada. Afinal, não era o magister (professor) aquele que lidava com as questões superiores, enquanto o minister cuidava dos afazeres menores? Com certeza é uma função de alta dignidade, principalmente num mundo rude de hoje, que justamente se gaba da... universalização da educação.
Obviamente a educação é uma atividade nobre para os padrões das atividades ordinárias. Mas......o mesmo se pode dizer do dinheiro, que representa o fruto do trabalho, a representação da criação humana. Por isso que tem gente que é bravo com bancos e estados que roubam a população: roubar é escravizar, roubar o tempo de trabalho da pessoa. E hoje as pessoas vivem para trabalhar. Mas não falarei de dinheiro!!!
De pequeno a pessoa ouve: "estude para se tornar alguém na vida". Quem tem uma vida mais simples até fala: "eu não tive oportunidade, mas faço questão que meus filhos a tenham". [Paro e penso se pessoas sem estudo são menos pessoas.] Somos conduzidos nas matérias imprescindíveis do fundamental ao colegial até que passamos pelo funil terrível do vestibular, que vai dizer quem tem valor ou não. Chegamos na faculdade e agora preenchemos nossa personalidade: posso desfilar por aí com o jaleco do médico; com os trejeitos e criatividade do arquiteto; com o pragmatismo do engenheiro; com a doutrina e sapiência do advogado; com a esquisitice do programador. Afinal, agora eu sou mais eu... mais fantasiado.
Mas esse é um detalhe superficial. Muitos passam pela universidade e acabam afetados só por isso. Depois do choque de orgulho que o ofício traz, ele volta a ser uma pessoa um pouco mais comum no meio das outras. No entanto, existe uma realidade maior na universidade. Lá os destinos do mundo estão sendo traçados, o limiar do intelecto humano está sendo expandido, um novo culto desponta. Lá dentro vemos semideuses cultuando o imponderável conhecimento: eis aí o deus transcendental, etéreo, impalpável, em que todos põem sua confiança.
O estudante está ciente que lá ele é um ser superior, comunga dos mais altos manjares celestiais. Nada pode impedir sua onipotência. É uma realidade intocável, nem mesmo pela polícia. Os destinos ditados pelo Übermensch não podem ser impedidos: está aí o espírito dos tempos a se revelar. Fumando maconha, bebendo em festas exageradas, fazendo apologia ao que supera o moralismo burguês, revoltado contra o sistema, destruindo e desconstruindo ele mostra que nada está acima dele.Mas o professor do alto de sua cátedra é o sacerdote que oficia os rituais mais sublimes. Na sentença de português indecifrável do jurista; na complexidade da dedução matemática do modelo físico do engenheiro; no desvelamento do mundo para o biólogo; nas estruturas sociais acima das quais paira invicto o cientista social; no niilismo e condicionamento que descobre o psicólogo na mente humana. Aí surgem todos os vaticínios aos quais a sociedade terá que se curvar e dizer amém.
Mas não quero enfatizar a influência social ou política. Não quero vero o que não universidade é fonte de poder ou controle. Quero salientar o espírito de devoção, a confiança que as pessoas despejam... a idolatria mesmo. Ao ingressar na universidade, me senti entrando em mistérios iniciáticos, em que a verdade seria revelada. Uma aula de economia, por exemplo, parecia revelar a sabedoria oculta do pensamento humano - tem sempre aqueles que reduzem a vida à economia, ou mesmo os que reduzem à biologia.
Esse é o espírito que queria mostrar. A pessoa passa por lá, se embebeda dessa realidade mística e depois acaba voltando à vida real dos reles mortais. Uns ficam para sacerdotes. Mas a deferência nesse templo do ex-discípulo será sempre a mesma.
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Postado no facebook em 26/09/2013

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