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quinta-feira, 7 de janeiro de 2016
O heroísmo ou: martírio moderno
Quando se fala de heroísmo, remete-se àquela imagem romântica de quando se entregavam ao martírio do sangue em prol de um valor. A visão data da época em que os reis mesmos assumiam o campo de batalha e com isso justificavam seu sangue azul, o que findou junto com a Idade Média.
Na modernidade e no tempo contemporâneo essa visão foi ficando cada vez mais mole e efeminada, perdendo o caráter sóbrio e austero do sacrifício e tomando a forma do divertido jogo dos pequenos prazeres. Crise após crise, o homem já não enxerga um motivo maior para sua vida. Isso se demonstra com o cuidado que é capaz de dar a um cachorro, negado a muitos homens.
O afeto do homem pelo homem e sua dignidade se rebaixou ao afetos pelas coisas. Antigamente tinha-se o porque lutar, fundado por uma pirâmide: o espiritual e universal (religião), o moral e artístico (convívio em sociedade), o econômico e científico (o domínio dos fatores materiais).
Voltando ao assunto. O herói se dispunha a entregar seu sangue por esta ordem. Ele se destacava em meio à batalha entre tantos combatentes. Sua força extraordinária animava os companheiros e desanimava os inimigos, como se fosse uma indicação da providência.
No entanto o mundo moderno niilista é o mundo das massas e dos super homens que as conduzem como "visionários". Parece que morreu a figura do herói, principalmente porque a guerra hoje é tecnológica e parece que se pode vencer atrás de um monitor por meio de um joystick. Onde o glamour?
Os líderes contemporâneos, além do mais, parecem rir das massas, conduzindo-as pelos prazeres dos modismos da hora. Não só demostram seu poder de manipulações, como fazem questão de pisar nas massas para demonstrar seu poder: a corrupção descarada e aberta não passa da seguinte mensagem: "aqui quem manda sou eu, seu verme". Mesmo que essa vontade seja difusa na imagem de um " sistema" ou de seitas secretas.
A tecnologia hiper avançada já não está como era na mão de um artesão, as pessoas já não sabem como as coisas funcionam, sejam objetos de consumo, sejam instituições sociais. Ninguém entende mais as engrenagens da nanotecnologia ou da engenharia social.
A massa parece duplamente prostrada, pois se sente esmagada pela amplitude deste controle e porque os heróis agora se foram. Mas não. É aí que surge a possibilidade do martírio moderno, tão mais pungente quanto mais sutil.
Quando indivíduos da massa olham uns para os outros, enxergam no silêncio geral dos seus prazeres descompromissados a sua maior fraqueza: o meu silêncio representa a minha impotência e o meu prazer representa a lavagem dos porcos (o pão e o circo). Nessas horas tudo parece sem solução.
Aqui age a mesma força social que rege as modas: o receio de ser diferente, de sofrer o ridículo. Se distoo, pode vir alguém mais forte que eu e me fazer passar vergonha: a massa fraca acompanha o forte na gargalhada. Eis o meio de controle das massas e de sua rotina, por meio das modas.
Mas o herói, que faz hoje jus ao sangue azul, sustenta publicamente sua consciência, mesmo que possa sofrer o martírio dos piores que ele. A massa, mesmo rindo, chorará no seu íntimo reconhecendo que alí estava a verdade. E se ela tiver o mínimo de esperança de superar essa opressão, saberá que é a ele que usará de farol para a direção, que é nele que apoiará sua hesitação.
Sim, irmãos. Não foi ontem nem será amanhã que acabarão as elites. E ninguém se sentirá pior por isso. O maior herói inclusive venceu na derrota do martírio, abraçando o sofrimento causado pelo ódio deste mundo. Quem está acima não é nada mais que aquele que está na frente, estende a mão e diz: "vem que eu te ajudo".
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