Prezados amigos leitores, este blog fará uma série de artigos sobre os militares, da qual este é o primeiro. O enfoque desta série é a valorização da profissão militar, seja para motivar os militares, seja para que a sociedade enxergue sua necessidade.
Comecei tratando da violência como constante humana. Agora completo falando da índole militar, da necessidade do militarismo como consequência da existência do estado, sobre a atuação política do militar e sobre o mundo das ideias. Espero conseguir falar um pouco do Regime Militar e da história da atuação militar, no entanto isto envolve conhecimento histórico e talvez eu até tenha que pedir ajuda para esses temas específicos (sem houver aí algum voluntário...)
Para o militar se conhecer, ele deve refletir muito sobre esses dois pilares do militarismo. Ao chegar numa academia militar, pode-se vivenciar uma enxurrada de novas realidades e costumes: ensinam as tradições militares, impregnam de um grande cerimonialismo, dizem para acostumar a ser antes militar do que profissional, cobram farda no alinho e continência. Nada disso é essencial, mas periférico. Ser militar não é nem ser bruto ou ser cruel. O militar tampouco é um autômato cego a serviço da vontade arbitrária do estado.
A hierarquia e disciplina estão por detrás de qualquer costume militar, não é à toa que dizem ser o pilar do militarismo. O militar deve meditar muito nesses pilares, mas não só durante o tempo de sua formação, mas durante toda a sua vida. Assim como lapidamos nossa alma durante a vida inteira através de exercícios espirituais, cada ato de nossa vida vai tomando mais significado à luz desses dois princípios, de forma que uma bom militar pode dizer que adquiriu ao fim da vida a sabedoria.
O primeiro passo para essa meditação é atentarmos para o significado dessas palavras.
HIERARQUIA
A Igreja Oriental guardou para "hierarches" seu significado mais próximo, como quem conduz os ritos supremos (equivalente ao bispo), refletindo o poder sagrado. A casta sacerdotal, a quem os altos ofícios sempre foram reservados na história da humanidade, realiza coisas que o leigo (fiel comum) só é capaz de observar. Mas entre os sacerdotes há quem seja o sumo sacerdote, a quem é reservado o maior rito. É assim nos oráculos pagãos, nos ritos judaicos e até hoje no cristianismo.
A frase que explica brevemente a hierarquia é: "ninguém é igual a ninguém, entre duas pessoas, uma manda e outra obedece". Isto é um fato pouco confortável ou presente na vida civil, mas é a constante na vida militar. A figura do organograma é a que melhor explica essa realidade.
Em última instância, a obediência deveria ser até mesmo cega, cumprindo até mesmo ordens absurdas, humilhantes ou injustas. Mas não é assim que se passa. Embora as altas posições possam ser ocupadas por critérios que pareçam não meritórios (tempo, amizade, traição, briga pelo poder), a obediência a um sistema é um princípio maior. Em outras palavras, o espírito da rebeldia destrói mais do que as vantagens alegadas pela superioridade de um mérito. Isso vale eminentemente para o meio militar, em que se lida com vidas. Nas economia, a competição irreverente pelo mais capaz é justificável: se tratam de coisas.
Mesmo porque, a hierarquia expressa muito mais do que no mando de seu chefe "tirânico". A hierarquia é honesta, ela explicita claramente as relações de poder, coisa muito difícil de discernir nessa sociedade de hoje, onde reina a cultura subliminar de massas e as seitas secretas. Um exemplo é a Igreja de Roma: é possível ver claramente quem manda mais e quais as normas que segue. Daí que vemos que não pode haver tirania arbitrária: acima do meu chefe estão: o Comandante da Organização Militar, o Diretor Setorial, o Diretor Geral (Estado Maior), o Comandante da Força, o Ministro da Defesa e o Presidente da República. Então o presidente é o tirano mor? Negativo. Acima dele está a Constituição, ou seja, o povo. Explico isto melhor no 3º artigo da série.
Um militar não pode ter dois chefes, ele está em disponibilidade permanente (ou seja, 24h/dia) para o seu chefe. Se alguém mais antigo (ou seja, com maior grau hierárquico) deseja mandar algo pra eu fazer e não comunica meu superior, ele está cometendo o deselegante ato de quebra de hierarquia: ao mais antigo, deve-se somente a reverência por sua posição: o respeito, a continência e a consideração. Claro que o bom tom e a praticidade permitem mínimas quebras de hierarquia, como se estivesse implícito: o seu chefe sabe que os demais procuram diretamente você, pois é sua atribuição permanente e seria desnecessário alongar o percurso da comunicação.
Saber quem manda, ter essa clareza, traz uma grande vantagem, exclusiva das organizações estritamente hierárquicas: a não hesitação. O militar hesitante, frouxo, não está apto para o encargo. O militar deve decidir no tempo oportuno -- principalmente se for exigida uma decisão de pronto -- e por isso ele deve treinar a sabedoria, que é o saber o que é mais oportuno, considerando os mais altos valores humanos. Já o meio civil está desacostumado com esta certeza, pois muitas vezes o poder está turvamente distribuído nas mãos de vários e a influência política pode alterar essa balança no tempo: daí que as pessoas ficam hesitantes em agir segundo a opinião de uns, temendo a opinião de outros. No meio hierarquizado existe pouco questionamento cruzado, pois a ordem é respeitada, até como reverência à sabedoria do espírito da instituição.
DISCIPLINA
A disciplina é a rotina do discípulo, ou seja, do aluno, daquele que aprende. Tem gente que acha que o aprendizado é um evento singular: "li e aprendi". No entanto, o domínio de qualquer matéria é gradual e crescente, exigindo dedicação e meditação. Se faculdade a ser aprendida é sublime, talvez leve a vida toda e exercício. A matéria pode ser algo bem concreto, como a habilidade técnica para fazer um artesanato ou um esporte: isto envolve destreza física. Ou pode ser algo tênue, abstrato ou intangível, como a filosofia.
O homem não pode cair no barbarismo de se deixar cair por qualquer um dos extremos disciplinares. Nem pode ser um imbecil corpulento, que não sabe ver sentido em nada que faça. Nem pode ser um filósofo perdido no alto das abstrações da sua torre de marfim, que não sabe fazer o espírito tomar corpo. Mens sana in corpore sano, o militar deve ver o sentido último de sua função, que o leva a situações brutas e cruentas, mas pela defesa de altos valores e através de nobres procedimentos.
Sendo gradual e progressivo, a aquisição de uma habilidade por meio da disciplina não é nada mais do que o exercício da memória. Vício e virtude são o hábito em maus e bons procedimentos, respectivamente. Para se ter um hábito é preciso repetir. O vício dá prazer, como o é com as drogas, por isso tendemos a repetir, a nossa memória cria uma dependência. O valor da virtude não se mede pelas baixas paixões do homem, mas pelos grandes ideais.
O militar é treinado para a virtude. "Virtude" tem o radical "vis", que é força, daí a imagem do homem viril (vir) e do virgem que guarda sua força. A virtude militar exige esforço, dor, abnegação. Mas tudo em prol da defesa de valores, de instituições, de pessoas, da pátria. A disciplina militar é o que permite a higidez física, pronta para o combate, ao mesmo tempo que dá agudeza do intelecto, para a decisão rápida e certeira. O militar se antecipa, é avesso ao improviso: estar "pronto para" exige antecipar-se, preparar-se de corpo e alma e conseguir os meios apropriados para sua finalidade.
CONTROLE DO HOMEM
Como escrevi no artigo que comenta o livro "Revolução e Contra-Revolução", a desagregação da sociedade envolve a derrubada de dois pilares: a hierarquia e a pureza. A hierarquia diz respeito à ordem natural das coisas no macrocosmo, em que há posições mais altas e mais baixas, num todo harmônico: desde a família, passando pela sociedade, até a ordem celeste. A pureza, equivalente à disciplina, se trata da hierarquia interna, do microcosmo: as minhas faculdades superiores ordenam as inferiores.
Não preciso explicar a hierarquia, mas sobre a pureza é preciso esclarecer. Por exemplo, posso sentir prazer com alguma função inferior (material) do meu corpo, como a satisfação alimentar ou sexual. Mas também posso sentir prazer nos altos valores da sociedade, como na manutenção da justiça, na honra de manter sua palavra, no compromisso com a verdade e com o belo. Claramente o prazer o segundo tipo é superior e deve ordenar o do primeiro tipo. É disto que se trata a pureza, ou seja, que a hierarquia dos nossos prazeres não seja invertida e eu que acabe sacrificando o superior (o bem social, a caridade) pelo inferior (o prazer mesquinho, egoísta). Invariavelmente, quando somos governados pelo inferior, nos chafurdamos nos vícios, que nada são além do que o desvio da finalidade das coisas.
Muitos dizem que o militar é um autômato, que se submete a coisas irracionais e que não pensa. A nossa sociedade gosta de se enganar, porque o que se passa é exatamente o oposto. Quem não cuida da sua disciplina, se torna inconsciente e bárbaro: o seu egoísmo o governa. A pretexto de dizer "eu sei o que é bom pra mim", caindo na preguiça e na indolência, acaba por ser governado pela própria irracionalidade: eis a descrição da nossa sociedade indisciplinada. Não são pessoas esclarecidas, pelo contrário, seu interior está enegrecido pela falta de luz para iluminar o que vale mais e o que vale menos: é a tirania do arbitrário, do egoísmo e do irracional.
A disciplina não é nada menos do que o próprio exercício ascético, ou seja, pode ser considerado um exercício espiritual. Claro que o militar não chegará até o recolhimento e elevação de um monge. Mas o contrário da disciplina permite o que vemos hoje, que é a cultura de massas: as pessoas governadas pela engenharia social, que as governa através do seu inconsciente, ou seja, de suas baixas paixões.
Em sentido contrário, a prática constante da disciplina, que hierarquiza os princípios internos do homem, levará o homem a enxergar de forma mais clara tanto a ordem em si, como a ordem fora de si. O ordenação do corpo e da mente, mas também das instituições e da sociedade. Ele verá que é muito mais construtivo lutar pela ordem, do que criticá-la e destruí-la. Eis do que se tratam as revoluções: o ódio contra a ordem, o egoísmo aplicado. A disciplina é o primeiro passo da sabedoria e da humildade: há algo maior do que eu, quem sou eu pra dizer o que seria melhor? Que eu conserte antes a mim mesmo.
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ARTIGOS DA SÉRIE:
1 - Violência e legítima defesa;
2 - Hierarquia e disciplina (apresentação da série);
3 - Estado e poder constituinte;
4 - Militar como cidadão pensante;
5 - Contra-revolução de 1964;
6 - Reflexões Estratégicas;
7 - Ideias da guerra e guerra das ideias;
8 - Positivismo, a falsa certeza;
9 - Problemas estruturais das FFAA.
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