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| Meiguices diversas. |
Antes, me justifico: não há tema que não seja digno de ser tratado. Todos os problemas, desde os mais amplos da sociedade até os mais ínfimos da psique humana, têm um significado que aponta para um problema geral, que é o desafio de ser humano. Resumindo, todos temos uma cosmovisão (mesmo que neguemos ou desconheçamos), que orienta e reúne todos os fatos sob um significado uno, com sentido.
Regra fundamental de um relacionamento: tenha o que compartilhar. E vale não só pra casai, como também para amigos e família.
Ué, mas então qual o problema? Por enquanto só óbvio ululante.
AMOR ROMÂNTICO: SERÁ?
Uma visão romântica do amor trará aquele lugar comum da química inexplicável que derrete o coração e suspende a lógica, capaz de fazer cometer insanidades que provam o amor sem limites. Sem me prolongar, sublinho o erro: suspender a lógica. De fato, esse amor romântico se traveste de várias faces e filosofias, que indicam que as pessoas precisam largar o racional e serem mais intuitivas e viscerais. Não vou me delongar dizendo se isso se aplica ou quando se aplica. Só ressalto que o raciocínio dito "visceral" serve para inocular qualquer tipo de veneno sem que se perceba.
A ALMA: DO QUE SE TRATA?
A alma é intermediária entre dois mundos que se entrelaçam:
- matéria, mundo físico, palpável pelos sentidos, mutável, particular.
- forma, mundo transcendental, espírito intangível, eterno, universal.
Portanto a alma tem em si o conflito um conflito do imediatismo em relação ao eterno. A alma deve ser pensada hierarquicamente, pois a realidade do espírito deve ordenar as instâncias inferiores, sob a pena de fragmentar a própria consciência. Esta consciência coincide com a cosmovisão da pessoa. E cada religião ou escola filosófica são várias fontes para as cosmovisões.
A forma de hierarquizar é a seguinte. A alma tem desejos, tanto por necessidade materiais, quanto por consolos espirituais. Isto passa pelas necessidades básicas, pelo convívio social e pela ordem universal. Ora, não há outra forma de se ordenar a alma, senão as ideias ordenando as coisas.
A ALMA: AQUILO QUE COMPARTILHAMOS
Nós podemos compartilhar aquilo que quisermos. Compartilhar coisas é o que há de mais periférico na nossa alma. Compartilhar situações a dois também é inferior. O maior compartilhamento é o compartilhamento de valores, de cosmovisão. Essa é a receita de sucesso.
Muitas vezes não temos certeza de nossa cosmovisão e vamos incertos e hesitantes entre as filosofias do mundo. Ora, uma alma fraturada vai introduzir fratura no relacionamento. Vão me dizer: "se for pra esperar resolvermos toda a questão humana pra termos um relacionamento, então ficaremos sozinhos".
A vida é feita de aproximações, tentativas e erros sim. Mas isso não implica em cair de cabeça no abismo só pra testar se minhas vísceras estão raciocinando certo.
EU NEGO O VISCERAL, O INTUITIVO?
Será que não pode haver amor à primeira vista, então? Não nego isso. Eu justamente prego o contrário. A vida é um hábito. A intuição não faz nada além de enxergar o que o coração mais quer. No entanto, a vida, o palpitar do coração, veio com um sopro, de forma que o que o coração mais anseia são os valores universais. A intuição precisa ser educada. Diz o ditado que "a boca fala do que o coração está cheio".
A pessoa deve exercitar a ascese espiritual, de forma que, após muitos exercícios, a intuição não se enganará e enxergará cada vez mais o melhor. Ao contrário do amor romântico, que prega que devamos parar de pensar: no entanto é só a razão que pode decidir espiritualizar-se. As vísceras querem satisfação imediata e por isso precisam se educadas, lapidadas e abrandadas na suavidade do espírito.
BIZUÁRIO DO RELACIONAMENTO
- Conheça a si mesmo. Qual é sua cosmovisão?
- Depure a si mesmo. Resolveu suas contradições, ampliou sua consciência?
- Tente compartilhar o que há de mais alto em si mesmo, os seus valores.
SOCIEDADE ORDENADA: PROBLEMAS PRÁTICOS
O paradigma de hoje é a relativização geral. Por isso há o pensamento suicida: largue de pensar e aja sem culpa. E por isso se prega o estado laico, que consiste no estado relativista: não há verdades. Desnecessário provar que isso só gera incompreensão e violência. Pensem: será que não existem valores dignos de serem mantidos? Pois se abolirmos tudo, não poderemos reclamar a selva em que vivemos, em que vale tudo.
Um problema prático, dizem as mulheres, é que o homem não quer compromisso. Somente o tempo pode fazer do amor algo apurado e com significado. No entanto, os ambientes e costumes, as filosofias e a produção cultural... toda a modinha de agora prega o amor livre. De duas uma: ou as mulheres querem compromisso ou essa falsa liberdade. Uma coisa contradiz de modo berrante a outra.
Os que acreditam na filosofia do "viver intensamente" o agora, talvez finjam acreditar que agora pode ser hora de amar e que o amanhã pode ser hora de desapegar. Vã filosofia: só houve tempo de compartilhar o que há de inferior na alma. Para compartilhar as nuances e belezas do espírito do outro, requer-se tempo: é igual degustar com paciência um grande livro. E o espírito uno do casal se formará como um terceiro espírito mais belo, pois superou em si contradições de pessoas e do mundo.
A sociedade deve refazer os ambientes de forma a privilegiar que as pessoas troquem, já em primeiro lugar, aquilo que têm de mais alto. Um ambiente favorece o surgimento de certas ideias. As ideias do mundo de hoje são o niilismo: nada há de verdadeiro e honesto. Posso considerar que quase toda a produção da música popular proporciona um ambiente deste tipo.
Não estou pregando o moralismo. Estou pregando a honestidade. Os nossos ambientes são monotemáticos e seus propósitos são escondidos. É preciso variar a oferta e colocar o rótulo do ambiente, dizendo a que se presta. Algo como a imprensa dos EUA, que não esconde que é parcial, diferente da imprensa brasileira, que acha que engana alguém. O mercado se encarregue de dizer qual ambiente sobreviverá.

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