segunda-feira, 20 de julho de 2015

CV II: reflexão sobre o poder e a obediência

Coroação de Carlos Magno, Imperador do Ocidente, pelo Papa Leão III

Tendo ouvido muito sobre o que tenha sido o Concílio Vaticano II com seu espírito e podendo comparar com o Rito Romano Extraordinário (Tridentino) e com outros ritos como o dos Melquitas (Bizantino), é possível refletir sobre boa parte dos problemas da modernidade, da questão do poder, da liberdade e da igualdade.

Não me atendo a textos do formalismo eclesiástico, deduzo qual seja esse espírito pela comparação dos ritos e pela Igreja de hoje que alega virar-se para o povo: diz-se que se deve orientar a liturgia para o povo. Ora, a liturgia que era para Deus, agora deveria se compor aos anseios do povo.

(Faço um parêntesis. Bento XVI, com a hermenêutica da continuidade, dirá que este é um falso espírito do Concílio, para legitimá-lo e para colocá-lo na tradição da sabedoria da Igreja, sem que haja uma ruptura temporal. Eu concordo e discordo. Pelo lado prático, me parece ter havido ruptura. Mas como esse espírito expressa o empoderamento das classes inferiores — padres e leigos —, pode se dizer que a ruptura ficou a cargo de cada padre e fiel).

O que de fato ocorre até hoje é um quê de igualitarismo (aversão à hierarquia e à obediência) em que a cabeça da Igreja quer que os pés definam os seus rumos. Nada contra, caso haja uma sincera obediência ao Espírito Santo.

Ao entregar esse "poder", um ato de liberalidade do clero, as dores da Igreja passaram a ficar muito próximas das do mundo. Antes a Igreja tinha uma postura monástica, com um clero "recolhido em si para meditação". Agora ela vive como um cidadão da pólis, mergulhando nas últimas dores que se expressam numa atividade política.

Surgem em dois momentos fenômenos contraditórios e belos.

Num primeiro momento, me parece que o próprio clero estava mais imbuído do espírito do mundo do que os leigos, como que sendo mais realista que o rei. Rasgaram as batinas, convidaram à miséria os sublimes e ornados altares, trouxeram a "linguagem do povo", desmistificaram os sacramentos e a penitência... Uns leigos logo aceitaram e espalharam os novos louvores (até que hoje é o predominante). Outros encaram com um certo escândalo, como que se aquilo tudo tivesse algo de artificial.

Num segundo momento, fiéis desbaratados já não sabem se estão na Igreja ou no mundo ou vice versa. As Igrejas se esvaziam, pois entre o mundo e sua imitação, as pessoas preferiram a opção mais excitante. Já que o "poder" está nas bases, surgem aqueles que querem a simplicidade bela daquilo que sempre foi o mesmo: uma mesma liturgia que se passou em Roma, Idade Média, Renascimento, Iluminismo, Romantismo... O clero não pode negar, pois é a vontade do povo (algumas semelhanças com a simpatia atual com a Monarquia, defendida por São Tomás de Aquino).

Surge um estranho gosto pelo arcaico. Um certo arcaico que valoriza "coisas velhas" como: compromisso, responsabilidade, beleza, obediência, ordem, recato, modéstia, temperança, bondade, consideração, respeito e reverência. E isso não é um fenômeno da Igreja somente.

Ao compartilhar das dores do mundo, a Igreja não pôde deixar de padecer o maior dos venenos, que é o niilismo e a indiferença. Nada é melhor, nada é preferível, nada é certo, nada é bom, nada é belo. Todas as variações são o mesmo. Resta só a desilusão das doses cada vez mais altas de prazeres baixos e falsas filosofias (religiões ou ideologias), sem que a fome pela palavra de Deus seja saciada.

A Igreja quer desvincular-se da imagem do poder. É feio. Mas as pessoas estão investigando a virtude da obediência, que é a saúde do pecado (original) da rebeldia. Quanta incompreensão! Um não quer mandar. O outro vê a doçura da escravidão em Deus (por sua ponte intercessora).

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