domingo, 17 de dezembro de 2017

Série MILITARISMO - 9 - Problemas estruturais das FFAA

Os artigos anteriores argumentaram muito sobre a soberania, mas ainda resta conhecer alguns problemas concretos que impedem que as Forças Armadas mantenham a sua saúde. Aqui comento pontos esparsos.



ESTIGMA DA DITADURA

Existe um mito de que o Regime Militar foi uma ditadura, ainda por cima de direita. Basicamente isso se dá pelo fato de que foi utilizado para parar um plano em andamento para uma ditadura (essa sim) do proletariado. O regime militar inchou o estado (coisa de esquerda), foi neutro ideologicamente, reprimiu a extrema esquerda e a extrema-direita (que se preparava pra enfrentar a esquerda igualmente por armas) e foi estritamente militar: nada muito além da hierarquia e disciplina. Qualquer coisa que dê a entender algo muito diferente disso é apenas uma distorção tendente ao delírio. Mas essa visão distorcida da realidade colabora para que a população tenha suas reservas quanto às FFAA, embora as considere como as instituições mais confiáveis do Brasil.

FALTA DE APELO POLÍTICO E PROBLEMA SALARIAL

De todas as funções que encarnam o Estado, a mais sublime é a militar, pois se dispõe a morrer por ele. Não há emprego ou carreira que preveja isso. O militar precisa ser visto como uma das funções mais importantes do Brasil. Um Comandante de Força precisaria ter as prerrogativas, a importância e a reverência tributadas a um ministro do STF, por exemplo. Mas quem abre a precedência, chama para os mais importantes eventos cívicos? O militar fica aprisionado no seu próprio mundo e não brilha no cenário do civismo.

Parte disso é devida a motivos ideológicos da história recente. Mas também é devido à perda salarial, pois são poucos os que enxergam a carreira militar como importante. Deve haver uma equiparação salarial sim, ao mesmo tempo que as outras carreiras devem respeitar o teto constitucional e abrir mão dos penduricalhos imorais em cima do salário. O militar é abnegado, sim, mas a sociedade precisa reconhecer o que é mais alto com maior dignidade. A carreira militar deve ser disputada, os talentos não podem ser afastados, o filtro deve ser elevado, passar somente a nata social nas virtudes: na honra, no brio, no preparo profissional, no nível cultural etc.

CORTE DE RECURSOS

O militar pronto para dar a vida precisa de meios condignos à importância da nação brasileira. Faz parte da motivação saber que a nação se importa com seu serviço e por isso reconhece que deve ter meios apropriados para sua missão. O corte de recursos, os meios sucateados, são mais uma forma de corroer a carreira militar.

CADEIA DE COMANDO: MINISTÉRIO DA DEFESA

Os valores militares estavam muito melhor representados em governos anteriores, em que podiam marcar presença e demonstrar a sua importância, no momento que em os próprios Comandantes de Força eram ministros, ou seja, sentavam na mesma mesa para discutir com os demais ministros do presidente os principais problemas da nação. O militar é encarado agora como um subalterno, ele não participa da discussão, apenas recebe a ordem e compre, como uma máquina. O Ministro da Defesa acaba não sendo militar, não transmitindo o espírito militar para o governo e colocando os militares como cidadãos de segunda classe. Na verdade, os Comandantes de Força, à época do FHC, carregam essa culpa, pois o incorreto deve sofrer ponderação sim.

PERSEGUIÇÃO: PUNIÇÃO EXEMPLAR

Todos os artigos anteriores descrevem fatores que desagregam o o corpo militar, principalmente alijando o militar de pensar. Não quero com isso, de forma alguma, insinuar qualquer coisa em prejuízo da disciplina. Mas o fato é que os militares estão pródigos em dispositivos para se autocastrarem: a palavra do militar tem pouca fé pública; as próprias normas militares tratam de forma burocrática e não pessoal os militares com problemas na justiça (imagine encarar bandidos de fuzil e saber que será processado depois). Isso, na verdade, é apenas decorrência da perda de proeminência social, coisa que essa série de artigos deseja demonstrar. Logo, o militar, desde o topo, encontra-se acuado diante da sociedade e repassa esse medo para baixo. Tudo isso prejudica a honra, o brio e a abnegação, pois o fato que se vê é que muitos evitam de se expor: mas o militar é uma vitrine para ser quebrada.

Nada melhor do que pegar um exemplo concreto para demonstrar a punição exemplar. E esse é bom, pois expressa a antítese de todos os problemas relatados nesses artigos. Se trata do General Hamilton Mourão. Ele teve três problemas públicos recentemente, considerados sob a óptica da indisciplina. Na época que comandava as tropas do RS, foi punido por discursos feitos à tropa que envolviam os graves problemas nacionais. Saiu da posição de prestígio (comando de tropas) para uma posição igualmente elevada, porém não prestigiosa (burocrática) em Brasília. Numa loja maçônica, relembrou que as FFAA podem intervir em caso da falência dos poderes constituintes (os 3 poderes). Na ocasião, não foi punido, com medo de ser martirizado e cair nas graças do povo. Novamente, agora mais recente, falou que o governo não passa de um balcão de negócios (tem sido assim desde 1889) e foi colocado numa posição diminuída, numa clara punição.

O fato é claro, as instituições corroeram-se por completo. O militar em campo de batalha, encontra-se com a roupa enlameada e ensanguentado. É bobagem se preocupar com a imagem que vão fazer dele. E tem gente reagindo como se a casa já não estivesse completamente destruída, o povo sofrendo e o moral baixíssimo. Onde ficará o espírito de corpo? É possível servir à iniquidade declarada?

__________
ARTIGOS DA SÉRIE:
1 - Violência e legítima defesa;
2 - Hierarquia e disciplina (apresentação da série);
3 - Estado e poder constituinte;
4 - Militar como cidadão pensante;
5 - Contra-revolução de 1964;
6 - Reflexões Estratégicas;
7 - Ideias da guerra e guerra das ideias;
8 - Positivismo, a falsa certeza;
9 - Problemas estruturais das FFAA.
...


Nenhum comentário:

Postar um comentário