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| Je sais pas qui est Charlie |
A primeira coisa que pode-se notar não tem a ver com o assunto. Já notaram como a nossa sociedade -- orgulhosa de descender da época das luzes -- encarna o tom inquisitor a cada fato simbólico como este? O máximo de reflexão que a nossa sociedade se permite é criticar o moralismo dos que censuraram a saia da Geisy Arruda, ou talvez especular sobre as formas que Bolsonaro já estuprou a Maria do Rosário. Tudo em tom de escândalo, consternação geral, gritaria, choro e ranger de dentes. A vida de um cidadão (mesmo que pessoa pública) cai ante a pressão do tribunal moral social, como se o destino da humanidade fosse ser decidido naquele momento. Mas que não encontrou em si errinhos similares, que discretamente escondeu para si?
A segunda coisa é um mal sinal. Claramente essas notícias veiculadas pela mídia, como o peso da falta das proporções e com carga passional desmedida, têm tido um direcionamento muito definido: a polarização da sociedade. Se a sociedade brasileira tem uma virtude, algo acima da média mundial, do qual podemos nos orgulhar até, é a convivência com coisas contraditórias. O brasileiro é o povo menos xenofóbico e racista do mundo, consegue conviver pacificamente com todas as religiões. Por outro lado, acabamos nos ajeitando a níveis insuportáveis de corrupção. Mas nunca o brasileiro foi dado a esses estouros de intolerância que se vê aí afora. Vamos nos deixar entrar nesse joguete e tomar partidarismos mundiais?
Em terceiro lugar, o próprio tema é interessante e traz duas discussões: como lidar com todo o espectro religioso e do humor. Discutamos o mais fácil primeiro, o humor. É a única via de crítica aberta que o politicamente correto não conseguiu fechar. Por todos os outros meios, as pessoas têm que falar "cheias de dedos", para não ferir suscetibilidades. O humor tem a licença de ir contra a moral, contra o politicamente correto; com sutileza, zoa coisas por meio do racismo, da xenofobia, dos defeitos dos homens... mas nunca com essas coisas por fim.
A ironia do humor normalmente tem uma mensagem além daquilo que zoa imediatamente. Um humor que zoe gordo por ser gordo ou preto por ser preto, é um humor grosso e sem graça. Tem uns que querem calar o humor desse tipo. Seria o despotismo do politicamente correto, a última fortaleza derrotada. Um humor como esse do Charlie é claramente um mau humor (ruim e malvado), é sem graça, forçado. Não é a toa que ninguém o conhecia. Aqueles muçulmanos nos fizeram o desfavor de espalhar essa merda pelo mundo. Ora, o humor é uma das artes mais difíceis e sutis, a punição pelo humor ruim é a fraca audiência.
Agora religião. Não farei qualquer consideração sobre a diferença entre as religiões. Pra mim, o problema aqui é extra- , ou melhor, infra-religioso. É um problema do mesmo tipo daquele comum nos EUA, que faz um psicopata pegar uma armar e fazer uma chacina de inocentes -- e nessas horas surgem os intelijumentos defendendo o fim das armas (das mãos dos civis, mas não dos seus comparsas bandidos). Uma pessoa centrada, numa relação saudável com seu corpo e mente, com sua família, com a sociedade, com a natureza etc... nunca sairá e cometerá esse tipo de coisa.
Isso é uma obsessão psicológica, que consiste em manter constantemente certas imagens e certos sentimentos de ódio, não dando espaço a outros pensamentos, o que caracteriza uma vida saudável. Uns vão argumentar que este é um fruto espontâneo de nossa sociedade moderna, que é a falência do modelo capitalista etc. Eu sou da seguinte opinião: não existe nada espontâneo, em se tratando de fenômenos sociais. Há investigações que indicam que esses psicopatas têm acesso a conteúdo, eu diria "hipnotizante", que faz alimentar essas imagens. Da mesma forma, há formas de se fazer lavagem cerebral (que é uma ferramenta de guerra), para os diversos fins (pode-se alegar o fim religioso), de forma a colocar a pessoa numa redoma, enclausurada na sua loucura. Essas são as fontes que devem ser investigadas.
É por isso que a guerra hoje tem sido algo sem sentido. Muito dos conflitos de hoje só poderiam ser explicados nessa clave. Mas que jornal está comprometido em buscar a verdade? O fato é que nossa sociedade está se acostumando a formas ocultas de ação. Antes, um rei ou um imperador tinham uma vontade muito clara e o povo sabia o que era e o que era a vontade dele. O imperador arrisca sua vida pela sua vontade, pois é o que se viu nos assassinatos entre os romanos. A figuras que aparecem no poder hoje não representam a sua própria vontade e é difícil rastrear hoje em dia a fonte do poder. Quem acha que o Iluminismo veio trazer as luzes, ignora o fato de lá ter surgido a ciência das massas, as seitas e organizações ocultas (e ocultistas). E a Idade Média com seu cristianismo explícito.
A própria vontade das pessoas hoje é pura dissimulação. As pessoas se escondem atrás de camadas e mais camadas, jogos atrás de jogos, blefes e golpes. Quantos esbravejam o politicamente correto, quando em sua intimidade são racistas e odeiam pobres? Nessas horas ´é que somos Charlie, pois caçoamos morbidamente dos outros, falamos mal, escarnecemos e blasfemamos (mas na nossa intimidade hipócrita e segura). Dar a cara a tapa, mostrar ideias claras, transparência, sinceridade, é uma iguaria hoje para poucos.

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