quarta-feira, 13 de maio de 2015

Surpreendente!

Antes eu via um homem (eu, inclusive. Por que não!?) que queria se surpreender, sempre mais. Muitas pessoas ainda querem. Mas reina agora, depois de experimentar tudo intensamente, a depressão. O intenso já não é mais tão intenso assim e fica a sensação paradoxal de saturação que quer algo ainda mais forte.


Procurou nos divertimentos, focalizou no seu gosto, de forma que, no fundo, já não se abria pra mais nada: dava ao mundo sua força de trabalho (ordinária e mesquinha) e só aceitava receber o que lhe agradava. Já não havia mais espaço para compartilhar vidas, seja de amigos, seja de casal. Não aceitava mais o produto inesperado que vem do mundo. Exigia birrento que o mundo se comportasse como queria.

Relativizou, destruiu, cuspiu no que havia de valor. Achou que da diversão do material ou do animalesco sorveria tudo de que precisava. Senhor de seu trabalho, com seu dinheiro comprava tudo isso (comprava produtos vis nessa economia da esperteza, do dinheiro a todo custo: nem que o custo seja a banalização). Mas se descobriu só.

Se fechou para o mundo e só aceitava dele o que passava pelo seu filtro: no fundo, queria do mundo um reflexo infantil de si. O seu paradigma continuou o materialismo, mas ainda continuou sedento. Não se enxergou como parte do mundo uno. Seu motivo de viver era curtir da vida o máximo, cedendo a todos seus impulsos.

Esqueceu ou procurou esquecer-se de que quem rege a vida é o espírito, cujo sopro dá o movimento correto de acordo com as leis eternas. Na outra pessoa não viu mais do que seu divertimento: transformou-a em objeto e se pôs numa relação onde só poderia ser objeto também. Tratando o mundo como objeto, se viu transformado em objeto: já não era mais homem, era coisa.Conseguiu tudo o que a escravidão da vontade vil lhe obrigou: sentiu-se orgulhoso e satisfeito com isso. Mas isso tudo era vaidade, vento que passa, vida que não frutifica. Morreu de vontade, nunca teve a paz da saciedade.

Houve também aquele que se recuperou, ou ao menos se enxergou num buraco. Sua tristeza lhe serviu de redenção. Seu primeiro passo foi a humildade em reconhecer que o mundo era maior: o que sua vontade mesquinha exigia era menor do que o bom de fato. As melhores coisas viriam de graça, como uma brisa fresca que não tenho como obrigar que passe. As bênçãos que vinham do mundo, o amor sincero que as pessoas lhe devotavam, mesmo o seu esforço de caridade desinteressada: tudo isso contentava mais do que qualquer prazer inferior. Já não não se via mais  o todo poderoso senhor de si, mas reconheceu que dependia do mundo. Mas de algo precisava ser senhor: da sua consciência, que, mesmo quando ele a calava, apontava para o que não convinha e exigia a virtude.

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Postado no facebook em 16/11/2012

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